sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O poeta no meio do caminho



A menina não conhecia poesia.
Sabia é claro recitar e cantar, samba le-lê e batatinha.
Sabia a canção das ondas chegando na praia.
Sabia o canto dos passarinhos na algazarra urbana.
Não tinha muitas idades.
Sabia porem, que o poeta morava em seu caminho.
Sentadinha no ônibus para a escola, sempre à janela,
levantava-se ao passar diante do prédio.
Sabia que era ali.
Ali morava o poeta.
Ela levantava em reverência, sem nada dizer.
Não sabia o que ele tinha escrito, sobre a pedra no caminho
sobre a máquina do mundo, sobre a morte do leiteiro.
Mal aprendera a ler.
Sabia por saber.
No seu coração a poesia teve letras depois.
Um dia no seu caminho, passando na frente do prédio do poeta
viu-o saindo no portão.
Passo certo, como que tímido. O homem por detrás dos óculos e do bigode.
Ela gritou para os amigos, como se visse um carrossel:
Olha lá, é o poeta, é o poeta.
Seus olhos brilhavam contentes.
Seu coração não perguntou nada.
Ela sabia que ali morava a poesia.
Continuou nos outros dias a levantar ao passar.
As pernas no ônibus não eram vistas.

Hoje ela toma vinho
E fica comovida como o diabo quando lembra
do dia em que tinha um poeta no meio do seu caminho.

Foto de Dauro Veras - carrossel no parque da cidade - Brasília

9 comentários:

Claudinha disse...

Lindo Marie, uma homenagem à altura de Drummond, o grande poeta...um dos meus preferidos!

Tuas poesias me encantam, são doces, táteis, e essa, em especial, por ter um que lúdico, o olhar através da criança: lindo, lindo, lindo!
bjos

Georgio Rios disse...

Quanto quis ficar no meio do caminho, eu o poeta e a pedra...

Caio Rudá disse...

Que bonito, hein?

Drummond é mesmo um ícone, uma referência em poesia. E você foi feliz ao usá-lo no poema.

j. monge disse...

Lindo! Comovente!

Ricardo Thadeu disse...

Drummond e sua pedra no sapato, digo, no caminho.
Nada como um poeta-múmia relido. Primeiro a poesia e depois as letras.


Bye

Aldina Duarte disse...

Ter um poeta no meio do caminho é meio caminho andado na memória da felicidade e no sonho com a eternidade...

Parabéns e muito agradecida.

San disse...

acho que o poeta nunca mais saiu do seu caminho, Marie.

Ricardo Thadeu disse...

Ora, Marie... Como não gostar?

Mayrant Gallo disse...

Você costurou bem e com habilidade os vários momentos de CDA a uma nova circunstância. Chamamos a isso procedimento artístico. Gostei.