quarta-feira, 11 de março de 2009

Confeccionário


Não ando em mim.
Melhor, dizer a verdade: ando.
Apertada, encolhida em alguma parte que não sei onde.
Perambulo, em algum exílio dentro deste corpo que se amotinou.
Não fui correr.
Não consigo me disciplinar.
Meu atraso crônico agora me alcança.
Não consigo chegar em mim.
Não consigo sair de mim.
Ando pendurada pelo trapézio direito.
Sonho, e pela manhã, o travesserio não solta o gancho de meu ombro.
Meu pescoço pesa uma tonelada e abigorna minha cabeça.
Sou uma miríade de pedaços doloridos e desencontrados.
Roubo prazer e desperdiço nos desencontros de minha carne.
Os sentidos esbarram nos músculos contraídos.
As sensações se perdem no labirinto "circunvoluntário" do cérebro.
A noz do universo particular quebrada e sêca.
A nova ortografia em pergaminho perdida na pessoa desencontrada.
O rio corre sozinho.
Meu banho atrasa como a vida.
Não me encontro.
Nem meu hoje.
Nem paro.
Nem desespero.
"Hormônimo"!

19 comentários:

Aline Cabral Vaz disse...

marie/mariane/silvestre/gavinha!
obrigada pelo oferecimento, mas já resolvemos essa primeira etapa com a ajuda de uma amiga daqui. Beijo e qualquer hora a gente conversa sobre bebês. Podemos?
bj

(ah, me identifiquei muito com o post...mas nada que uma semana em Paraty não resolva!)

Fiona de Bourbon disse...

Nossa Senhora do Céu! Que forte, isso. E ainda me vi nesse texto, principalmente na história do travesseiro não soltar o gancho de meu ombro, rsrsrs.

Adorei!

Georgio Rios disse...

Marie, caimnando ouvimos teus versos tuas belas metáforas de caminhar...Lindo mesmo

M. disse...

Ando assim também, Marie. Bjs

Murphy Brown disse...

Deve ser uma epidemia, ou a revolta dos travesseiros...Bjs

Juliana Vermelho Martins disse...

E eu que me achava única no mundo!

Deve ser mal dos tempos, a entrada definitiva da era de aquário, a crise financeira (agora ela é desculpa para tudo, já percebeu?).
E nem posso culpá-los: os "hormônimos" (foi ótima essa!).

Agora já não me sinto tão só.

Se vc descobrir a cura pra esse mal que nos aflige e que vc descreveu tão bem, por favor, me avise!

j. monge disse...

quando perdemos a mão no tempo o tempo perde a mão em nós.
belo texto e obrigado por teres passado em minha "casa".

Silvestre Gavinha disse...

Aline, Fi, M, Murphy, Ju, valeu a solidariedade meninas.
Mostra que não é só a idade. Mas ainda assim considero os hormônios, que decididamente nos fazem semelhantes ainda que diferentes (até de nós mesmas) até tu, Ju. Haha.
Uma semana em Parati, seria um sonho. Tô rezando para os bebês me permitirem um finalzinho de semana na Ilha do Mel. Já de bom tamanho.

Georgio e Monge, seus comentários me honram num post definitivamente "mulheres à beira de um ataque de nervos" vocês conseguem ver o belo.Beatas as vossas mulheres.
Mas isso já sabemos, pelos vossos escritos.

Obrigada a todos.

Euzinha! disse...

Oi Marie,
tempo que não te visito, estive enrolada com o tempo excasso, trabalhando, trabalhando e trabalhando.
adorei o texto!
sim, tudo o resultado dos tempos modernos, todos nos sentimos assim.
beijos.

Ana Paula disse...

marie!

estou indo pra ilha do mel neste fim de semana e segunda-feira vou ver meus irmãos em curitiba... me manda teu e-mail? quem sabe a gente consegue se ver!

beijo

San disse...

se não honramos os nossos momentos não como vamos saborear os momentos sim?

Fabi.Catarse!! disse...

Marie,muito forte isso tudo! Tão transparente. Quem nunca se sentiu assim?! Mas devo dizer que "Hormônimo" foi uma sacada de gênio, viu?! A síntese feminina perfeita!

Bj!

bípede falante disse...

Marie, e a gente segue esperando o dia em que vai voltar e se encontrar sempre...

Batom e poesias disse...

Essa sou eu...
Não tenho certeza, não consigo chegar em mim...
Adorei e seguirei.
Rossana

glória disse...

esse hiato que nos reparte é o mesmo que faz vingar o tempo denso da poesia. dobras de nós mesmas cadenciadas em tempos que escorrem em direções diversas. nunca nos alcançaremos. mesmo que conspirem a nosso favor todos os "hormônimos" e previsões de tempo. somos vastas. esses desperdícios, desencontros, trapézios que nos suspendem para o alto e nào nos lançam em chào para-sempre-seguro é o que me conduz, nesse átimo de instante, a vir em busca de tuas palavras. tua passagem lá no "linhas" fez vendaval, fiquei em festa. voltarei sempre por aqui. bjs

La Vanu disse...

Marie, retribuindo a visita, ainda me acostumando com a nova situação...
Mulher é bicho esquisito mesmo.
Bj

Murphy Brown disse...

Perdeu-se no dia? Por onde rondas?

Nelida Capela disse...

A Confraria dos 50 publica Hábitos de Leitura, Hábitos de Leitor. Participe!

Mariana Fernandes Lixa disse...

Marieeee, adorei viu? andei sumida, sem tempo (na falta de uma palavra melhor) pra vim aqui... que coisa linda, salvei o texto pra reler algumas vezes...