quinta-feira, 6 de novembro de 2008

SOPHIA


Sophia, a gata que herdei de meu filho, minha companheira há 10 anos, morreu dia 4/10.

Quando viajei, logo após o feriado de 7 de setembro, levei-a para ficar com nosso amigo Humberto, que já a havia hospedado e abrigado ano passado quando também parti por um período de 20 dias.
Ela foi, com sua aparência tranquila, seu olhar inquisidor e seu coraçãozinho batendo forte e rápido, como sempre faz quando a tiro de casa.
Durante minha estada fora, teve uma nova crise pulmonar, de um problema já conhecido de Ferdinando (seu anjo da guarda disfarçado de veterinário), que foi prontamente tratada e melhorou sem renitências maiores.
No dia seguinte à minha chegada, recebi um e-mail de Humberto:

humberto - O FELIX





QUANDO ESSA MISSIVA CHEGAR EM SUAS MAOS.... ESTAREMOS LONGE.


SOFIA AGORA É MINHA E NAO MAIS SAIRÁ MAIS DAQUI.

NEM PROCURE AJUDA.!!!!! MUDAMOS.........TODOS OS GATOS DA AGUA VERDE ESTÃO SABENDO... INCLUSIVE OS CÃES AMIGOS !?

VOCE NAO É MAIS BENVINDA NESTAS PARAGENS.

FOMOS!

P.S. ELA ESTÁ BEM, FELIZ, CHEIROSA E TUDO VIU! MANDA LEMBRANÇAS E VALEU POR TUDO.


Achei-o divertido e entrei prontamente no jogo respondendo no mesmo tom:

QUERIDO FELIX....

O SE PREOCUPE, NÃO SEREI EU A INTERVIR EM VOSSO CASO DE AMOR.
POR QUEM ÉS MEU AMIGO!?!?

HÁ MUITO QUE SEI DO CORAÇÃO DOS SERES SOLITÁRIOS E QUANTO ELES GOSTAM DE SE ENCONTRAR.
TOMEM SEU TEMPO.
DEVO AVISÁ-LO NO ENTANTO, QUE SOPHIA, ESPECIALMENTE , É UMA ALMA LIVRE QUE SE DEIXA FLANAR AO DOCE BALANÇO DOS BRAÇOS DE DOCES GATOS MAS PERMANECE SEMPRE FIEL A SUA ESSENCIA FEMININA.
QUANDO FOR O TEMPO, SEGUIRÁ SEU CAMINHO.

ENQUANTO ISSO, MEUS VOTOS SÃO DE SUBLIME GOZO DE VOSSA FELICIDADE.
E, SE APARECER POR AÍ, SERÁ COMPLETAMENTE NA PAZ, COM GATOS E CACHORROS, APENAS PARA CORDIAL VISITA A DESFRUTAR DE VOSSO LAR FELIZ.

NOTO AINDA QUE ESTAS PARAGENS DE CÁ, ESTÃO E ESTARÃO SEMPRE ABERTAS. E TODOS OS GATOS SERÃO BEM VINDOS.

O! SIGAM SEU CAMINHO, SEJAM FELIZES SEMPRE.
E ATÉ NOSSOS CAMINHOS NOVAMENTE SE ENCONTRAREM.
GRANDES BEIJOS

CARPE DIEM.

No dia seguinte ao final da tarde Humberto me ligou preocupado que Sophia não estava bem. Tinha vomitado o que comera e não estava comendo mais, limitando-se a ficar quietinha enroscada num canto parecendo triste e fraca.
Brinquei, dizendo que era tudo resultado do choque em saber-se sequestrada em sua saudade.
Ele revidou dizendo que era bruxaria minha e que então a traria no dia seguinte para casa.
O sábado foi de chuva quase ininterrupta e quando cheguei em casa, voltando com as botas lavadas de uma rápida saída aos bancos, lá estavam, os dois a minha espera.
Ela estava no chão xadrez da minha cozinha deitadinha em cima de suas patas, como uma Esfinge com a cabeça abandonada a devaneios e não questionamentos mortais.
Quando me viu e a tomei nos braços, seu coração disparou e me olhou demoradamente com seu olhar tranquilo parecendo dizer-me: que bom te ver e estar em casa. Foi um momento aconchegante embalado pelo ritmo da chuva lá fora.
Servi-lhe comida e água no seu cantinho costumeiro que, talvez para me agradar, ela fingiu experimentar.
Era já passada a hora de nós também comermos e saímos para almoçar. Humberto ainda estava meio preocupado com a aparente fragilidade dela, mas lembrando-me de outras vezes em que me separei e voltei e da reação de minha amiga, acalmei-o dizendo que ela ficaria bem.
Foi o que realmente acreditei, apaziguada que estava pela doçura do nosso reencontro.
Conhecia aquela sensação, aquela calma recepção, aquele continente imenso de capacidade de solidão que sempre invejava e questionava nela o ensinamento.
Como diz Carpinejar, "a solidão deixa a gente inteiro".
Sophia conhecia isso profundamente e lhe rogava ensinar-me.
Em todos esses anos, desde que veio cá para casa, em primeiro lugar e principalmente para fazer companhia e pertencer a André, meu filho, se estabeleceu entre ela e eu, uma cumplicidade, um acordo, um contrato, um sei lá o quê, de entendimento e aprendizagem. Era mútuo. Conversávamos. Nos entendíamos. Nos fazíamos companhia.
Isso era o mais belo. Fazíamo-nos companhia mesmo a distância. E ela sabia como ninguém, ou como só os gatos sabem, ficar só e inteira. Esquentando a casa. Amaciando a mesa. Aconchegando o sofá.
Acho, que, depois de todos esses anos, nessa convivência caseira, quase clausura, de gato de apartamento, havia ultrapassado sua condição felina.
Tinha hábitos de gato, com manias de gente, e obséquios de cão.
Vinha me receber à porta a qualquer hora que chegasse. Salvo quando por qualquer razão, estivesse de mal comigo.
Namorava o cão da vizinha diagonal. Gostava dos cães. Perto deste, estacava soberba, deixando-o cheirá-la e examiná-la maliciosamente.
Quando ele não estava, alisava-se lânguida em frente à sua porta, sempre que tinha oportunidade de fresta aberta.
Outros cães, olhava curiosa. Não importando seu tamanho. Parecia procurar entendê-los e ao mesmo tempo confessar-se incapaz.
Outros gatos observava desconfiada. Se invadissem o espaço de dentro de minha porta enfrentava-0s agressiva e desafiadora.
Na clínica veterinária ou na chácara, concedia que transitassem a sua volta, mas sem muita intimidade.
Já não era só uma gata.
Depois do almoço, naquele sábado chuvoso, resolvi ir ao cinema e de lá voltei completamente mexida com a força do filme. O Ensaio Sobre a Cegueira.
Abri a porta, acendi a lanterna do hall e estranhei a falta da recepção de minha amiga.
Entrei chamando-a sem receber resposta, já imaginando se havia esquecido a porta de meu quarto aberta para encontrá-la submersa em minhas cobertas.
Ainda na penumbra do apartamento iluminado pelas luzes externas, divisei-a no chão da cozinha deitada esticadinha como costumava em dias de sol.
Ao tocá-la sua rigidez penetrou-me a mão, estarrecedora.
Tinha se despedido de mim definitivamente.
Como se ao espreguiçar-se, tivesse saído de si e esquecido de voltar. Os olhos abertos como a divisar outros campos.
Fiquei perdida. Chorei convulsamente o meu atraso. Chorei o filme. Chorei os olhos abertos dela. Chorei sua despedida doce e calma.
Coloquei-a deitada em sua cesta e assim a enterramos no dia seguinte, debaixo de um tímido sol ainda molhado da chuva do dia anterior.
Seu pelo branquinho e macio aconchegando-a no frescor da terra, onde está agora, rodeada de plantas e pássaros.
A casa ficou com a presença de sua falta.
O silêncio e a solidão agora são meus por inteiro.
Compartilho com sua lembrança a gratidão do que me ensinou.
Quis entender minha dor e escrever algo para guardá-la de outras formas.
Não conseguia no entanto concretizar o que pensava e sentia.
Passei alguns dias em momentos esparsos a olhar suas fotos e a continuar desejando registrar o sentimento, sem ser capaz.
Uns 20 dias depois, ainda sem ter sido apta a organizar meus sentimentos e escrever alguma coisa em forma de despedida à minha amiga querida, passeando pelo blog do poeta Carpinejar, encontrei uma crônica em que falava da morte do gato de seu amigo, acontecida dois dias depois da partida de Sophia.
Chorei novamente emocionada e escrevi a ele pedindo se poderia colocar seu texto aqui, enquanto não conseguia achar as palavras que precisava para dizer o que queria.
De alguma forma e por alguma razão, esta resposta e concedência só me chegou ontem, pela própria pessoa do poeta.
Hoje, de alguma outra forma, quando aqui sentei para postar a sua crônica em homenagem, despedida e acalanto à Sophia, comecei a escrever o que deveria ser apenas um bilhete explicativo da postagem dum texto não meu.
E de meus dedos acabaram-se derramando todas estas palavras e frases.
Pode parecer fútil, piegas e idiota toda essa despedida. Afinal, não estou falando, de uma pessoa.
O mundo urgindo em acontecimentos, a crise, a fome, a presidência dos EUA.... e eu emaranhada em meu novelo de sentimentos em relação a uma gata.
Não tenho explicação.
Tinha a necessidade. O desejo. A lembrança.
Fiz o que precisei e quis.
Com a autorização verbal do poeta, incluo a sua despedida de Oliver. Esta, sublime e bela. Escrita com a verve, a clareza e o talento que eu queria ter.

Obrigada poeta.


Segunda-feira, Outubro 06, 2008

ALMA DA CASA
Para Oliver, Luiz, Simone e Helena


Fabrício Carpinejar



Nunca fui fã de gatos. Era menino de quintal, e os fundos da casa pediam cachorros, para latir e proteger a família. Nenhum menino na escola dizia, é curiosa a evocação, que tinha um gato. Todos declaravam nas redações escolares que tinham um cachorro. Não sei onde os gatos viviam. Eles se multiplicavam nas muradas e antenas. Disparavam atravessando as avenidas, com uma velocidade espantosa, pulavam grades e cercas.

Enterrei seis gatos, apedrejados e enforcados pela maldade dos guris grandes do bairro. Jogados no terreno baldio ao lado da minha residência. Busquei os mortos com carrinho de construção e usei o avental da mãe como máscara de médico. Os guris grandes eram apelidados de girontes, mistura de girafa (pela altura) e mastodonte (pela truculência). Enterrei perto da horta, os cachorros respeitaram o luto e não uivaram. Um gato morto é um anjo sem asas. Mas achava que o gato merecia ser deitado no telhado, já que ele é mais céu do que terra.



Espero ter sido respeitoso com os felinos. Armei uma cruz com a data e o nome do dia. Repousei pedras como braços da chuva.

E compreendi o motivo secreto do gato não aparecer em minha infância. Gato é bichano de adulto, ou de criança superdotada. Há muita solidão nele para se agüentar quando pequeno. Descobri que os pais dos meus amigos cuidavam de gatos, que andavam sorrateiros pelos escritórios, desligando o abajur e vigiando as tomadas pelos cantos.

O gato não é como o cachorro, que lambe, pula, traquina logo no primeiro abraço. O gato estuda geometria. Não depende de nosso gesto para existir. Ele se aproxima devagar, como uma almofada e não mendiga ternuras. Espera o instante exato da amizade para merecer o amor e se vira para facilitar as cócegas. Não mexe o rabo como um ventilador desesperado no verão. O gato é silencioso como um ar-condicionado. Quente, frio. Tem controle remoto. Eu nunca sei de onde vem, pois já estava na sala antes de enxergá-lo. O gato é o antigo morador de qualquer casa. Conhece a planta da água oculta e as ramificações da umidade.

Curioso, mas não indiscreto como o cão. Atento, mas não fofoqueiro. O gato é quando calamos e não estamos tristes.

Recebi telefonema de Luiz Ruffato. Não reconheci sua voz. Vazia, sem rompantes, um tom impessoal de catálogo telefônico.

- O que houve, mano?

Seu gato Oliver estava se despedindo. O rim parou. Havia se recuperado milagrosamente nos últimos dois meses e voltou a sentir a falta de fome e se aninhar na morbidez das cortinas.

Quando conversava com Ruffato e Simone no apartamento deles em Perdizes, Oliver ficava alteado na janela e ouvia a música de fundo de nossos timbres. Um conselheiro sábio, confidente dos muros, que nos indicava a verdade pelos bigodes. Concedeu a pata algumas vezes, com discrição, um cumprimento honesto. Não mais do que isso, para não confiar em demasia nos costumes. Seu pêlo era a barba linda que teria se não convivesse com a lâmina.

A luz seguia Oliver pela casa, como uma palavra favorita. Abria clareiras pelos aposentos. Iluminava a mesa com sua toalha de olhos.

Se o homem é a alma da rua, se o cachorro é a alma do pátio, o gato é a alma da casa. Oliver reembolsou minha solidão. Eu o amo como se eu nunca tivesse existido. Sei agora desaparecer para não morrer.




7 comentários:

Claudinha disse...

Já tive tantos bichos, de diferentes tipos: gato, tartaruga, coelho, porco da índia, cachorro, papagaio...a lista é imensa! Mas os gatos deixaram marcas indeléveis..tanto na pele quanto nos ensinamentos.Tinha 3 gatas. Livres, independentes, carinhosas, por vezes egoístas, em outros momentos de uma generosidade sem tamanho. As perdi também, uma de forma bem trágica, as outras duas simplesmente encontraram outras "paragens", acredito que mais interessantes, pois nunca voltaram.
Agradeço a visita e retribuo, gostei muito também destas bandas.
O mais interessante é que através da bípede olhei o seu blog, antes mesmo de ver que vc havia comentado no meu...
a rede às vezes é engraçada!
Também voltarei!
Claudinha

Alessandro Palmeira disse...

Querida Gavinha, Se possível me manda teu email ou endereço residencial, gostaria de me contar. Abraços alquímicos.
Minhas condolências pelo teu bichano.

Alessandro Palmeira disse...

alessandropalmeira@hotmail.com

Mayrant Gallo disse...

Uma história tocante. Também perdi meu canário este ano e não passa um dia sequer sem que eu pense nele, em especial às 17 horas, horário em que eu limpava sua gaiola e renovava sua água e sua comida, e ele descia para comer e depois ia dormir. Em meio à sua ausência, consegui escrever um longo poema que não tive vontade de mostrar a ninguém. Segue inédito. Era isso. Obrigado pela visita ao meu blogue. Saudações! Mayrant Gallo.

Juliana Vermelho Martins disse...

Marie

Todas as coisas têm seu tempo... Por mais que a gente queira apressar ou retardar, elas sabiamente não acontecem antes de estarem prontas. Você não conseguiu escrever pela Sophia, os acontecimentos se sucederam caprichosamente, até que, quando enfim teve a autorização para publicar o texto do Fabrício, acabou por produzir o seu.

Não li o dele ainda, vou fazer isso agora. Mas queria dizer que me arrepiei e me emocionei com o que vc disse, mesmo não tendo animais de estimação.

Aliás, foi somente com a morte da Sophia e tendo de escrever pra vc naquele dia pra te consolar do inconsolável que entendi porque eu mesma não tenho, nem nunca terei, bichos de estimação. Não sou forte o suficiente para sobreviver à morte deles. Por isso invejo secretamente (agora publicamente) a força que pessoas como vc e a Giuse têm por terem a coragem de conviver com um ser de quem, muito provavelmente, terão de se despedir um dia. Sou covarde demais para isso!

Grande beijo!

FabiCatarse!! disse...

Vim agradecer a visita ao Clara em Neve e me deparo com esse post comovente. Amo os gatos com todo o amor que se é capaz de amar (...e um pouquinho mais...). A perda dói, dói, dói... incontáveis lágrimas, por incontáveis tempos. Mas o amor não diminui. Sinto muitíssimo por sua perda... sei como é. Ainda que saibamos que eles, via de regra, durarão menos do que a gente, quando se vão, a razão não é consolo.
Não conhecia esse texto de Fabrício Carpinejar... é lindíssimo e traduz muito bem o que é conhecer o amor de um gato.
Bj!

Mayrant Gallo disse...

Oi, desculpe se me comunico com você por aqui, mas não tenho seu e-mail e ainda não sei responder aos comentários. Bem, O inédito de Kafka (contos) pode ser encontrado nas grandes livrarias, como Fnac, Cultura, Saraiva, Siciliano, Submarino, Americanas etc. Ou na própria editora, que em geral fornece ótimos descontos: www.cosacnaify.com.br. Fico feliz com seu interesse. Se quiser, me mande seu endereço (m.gallo@ig.com.br), que lhe envio um outro livro meu, de poemas. Abraço, M.