quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Confessionário
O que dizer para você?
Comungas comigo tuas dores e alegrias e bebo ávida tuas histórias.
Mas tenho as mãos e a alma sujas de sangue das manhãs dormidas e noites acordadas.
O teu olhar triste, me comove e enche de inveja.
Onde está o meu sentir para além de mim?
Onde está minha verdade?
Onde está o meu amor?
A minha humanidade?
Não me negues tua sentença.
Prisão perpétua a estudar manuscritos mortos.
Por favor, me dê condenação!
Imagem:http://picasaweb.google.com/lidia3007/Lato?feat=featured#5512381609467
RONDA II
...
Perdida de si e do mundo vagueia as charnecas do seu ser.
Olha pelas janelas alheias deliciada.
Vê cores e perfumes. Vê vidas possíveis, distantes.
Tão esquecida.
Tão mergulhada na massaroca da sua.
Tão desgostosa de sua tormenta.
Tão sem fé nenhuma em si.
Tão míope.
Nem a metafísica dos chocolates serve de resgate.
O gosto doce-amargo do sangue da saga alheia embriaga mas escorre.
Nutrição fica no meio caminho do digestório.
A sêde secou na fonte.
O sono não apaziguou.
E continua comendo camarões estragados, cereais integrais e castanhas.
E enrolando-se na seda ainda não colhida.
A prisão do casulo nunca mais visitada.
Abandonada.
Eterna lagarta, contorcida e fedorenta.
Imagem da net a partir de uma imagem do blog Não Leia.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
News
Chegou meio bêbada de sono, de vinho e da vida
Recebeu de sua fonte de amor um endereço
Amou as imagens
Inveja, orgulho e amor
A força do sono imperou nos sentidos nocanteando a tentativa
Acordou decidida a compartilhar
Mesmo tarde
Antes nunca
.
Foto: News by André Ambrósio
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Ronda
Vegetara até aquele dia.
Até aquele inusitado momento em que sem nenhuma razão, resolvera clicar naquele simbolozinho Barrigudo que encontrara na tela.
Um mundo se abriu.
Desde então, passava as noites passeando nos mais diversos blogs.
Um dia encontrou um especial.
Tão especial como qualquer outro.
Mas de uma estranha maneira, tinha sempre a impressão que o autor falava dela.
Não com ela.
Não tocava sua alma.
Não inundava seus olhos com lindas imagens.
Falava dela como se a conhecesse e a acompanhasse no seu triste perambular vegetativo.
Nos breves textos, quase poéticos, contava toda a sua história sem graça.
Desde o dia em que nascera, não desejada nem recebida.
Sua infância solitária.
Sua adolescência insípida e míope.
Sua maturidade prematura e inconsistente.
Sua incapacidade de tornar-se mulher perante um homem.
Sua inépcia para estar no mundo.
E de alguma forma, na forma como ele contava, parecia diferente.
Era ela, tinha certeza. Falava dela. Mas parecia interessante, concreta.
Ali, adquiria sombras e contornos.
Sua vida ganhava traço.
Parecia até humana.
Não importava quanto perambulasse, embriagando-se em blogs de fotografias, poesias, músicas....
No final da ronda terminava ali.
Só ali se encontrava.
Ali lavava o rosto e penteava-se.
Era seu espelho.
Despia sua transparente inexistência e trajava seu avatar.
Ali vestia-se para enfrentar o sono e o seu dia acordado de viver.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Sábado de Carnaval
Assistiu pela enésima vez as PONTES DE MADISON que brindou com lágrimas nos olhos.
E bebeu vinho, por que, na maioria das vezes, a vida é nada.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Desejo
Só hoje, talvez não.
Mas hoje eu não quero mais o sangue nas mãos.
Não quero mais a vida pendurada na ponta do meu bisturí.
Não quero mais a doce delícia de brincar de Deus.
Não quero a responsabilidade, a vida, a felicidade.
Não quero saber nada.
Quero ver o amor nascer e nem pensar na dor.
Quero sentir a dor rasgar e não ter nada com isso.
Quero ser isenta.
Quero a absolvição prévia dos ingênuos e ignorantes.
Dos bem aventurados pobres de espírito.
Das criancinhas.
Quero cantar uma canção sem saber a letra.
Quero assobiar o poema e rir até me acabar, de rimar bunda com funda.
Quero a cacofonia me fazendo cócegas na barriga.
E o arrepio e medo só do mergulho.
Quero andar no escuro tateando os monstros e rir de seu desaparecimento quando encarar a escuridão.
Não quero a luz.
Quero o canto da sereia.
Me afogar e gostar.
E sumir na imensidão do mais fundo do mar.
Quero ser a onda lambendo a areia e me entranhando nela.
Quero ser o anjinho levando o mar numa conchinha para o buraquinho.
E acreditar que isso é só uma brincadeira e não um enigma para atomentar a alma do homem que pensa e pergunta.
Só hoje eu quero ser Amélia e fazer um pudim de claras, perfeito e doce.
E comê-lo inteirinho com molho de vinho ou de baunilha, prendendo entre os dentes as lasquinhas de limão.
Quero brincar de palavras grudadas e repetir até a exaustão o mesmo som , até ele perder o sentido qualquer que tenha tido.
Quero sair andando sem me importar para onde e voltar só depois de muitas voltas.
Outra.
Outra eu.
Outra dor.
Outra vida.
Ainda que a mesma.
Só hoje não ser eu.
Olhar-me no espelho e encontrar o gato da Alice.
Só o sorriso.
E o rabo.
Imagem:Picasa Lino>miscelanea. Caracol presumido
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Intervalo
Na sua frente o prato do dito almoço. De dieta, nem "rozcovo", comida russa como dizia a prima, era permitida.
Tinha misturado o que tinha. Algumas tiras tricolores de pimentão. Alguns tomatinhos. Queijo Cottage. 2 ovos estalados na Tefal. Sem gordura. O azeite forte com alho, gengibre e pimenta branca. Uma pitada de sal outra de pimenta preta.
Almoço frugal.
Às 15:30h.
Sacrifícios da idade. Do trabalho. Do tempo exíguo.
Comeu sem muita atenção.
Fixada na tela do computador.
Viajou rapidinho aos espaços mais próximos e voltou ao seu.
Alheiamente concentrada (paradoxo para ela sem nenhum mistério) tentou encontrar alguma coisa inteligente, interessante, engraçada, qualquer coisa para digitar.
Registrar.
Dar sinal de vida pensante.
Ao menos para si mesma.
Não conseguiu.
O tempo fugiu enquanto todas as idéias se atropelavam para tentar formar uma linha.
O telefone tocou.
A hora chegou.
Foi fazer o que tinha que ser feito.
Talvez mais tarde.
À noite.
Amanhã.
Imagem: Esperanza>Piezas de puzzle - Jigsaw pieces
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Apropriação in débita mas permitida e abusada.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
MEGA SENA
O tempo todo a TV anunciando a última edição do ano da Mega Sena, o maior prêmio acumulado nos últimos não sei quantos anos.
O notíciário mostrando as filas imensas das pessoas nas casas lotéricas.
Todo mundo louco para fazer a sua fézinha.
Quem sabe dessa vez dava.
Quem sabe dessa vez o pé saía da lama e entrava o Ano Novo sambando de alegria e de sapato novo também.
Ela levantou-se de onde estava e desligou a TV.
Foi para o quarto sem falar com ninguém e nem dar bola para a reclamação dos que estavam em volta.
Ela não tinha jogado.
Nem nunca iria.
No quarto, sozinha, lembrou de quando também tinha esse sonho.
Ganhar na Mega Sena, mudar de vida.
Mesmo antes ela não jogava.
Nunca tinha tempo.
Trabalhava invariavelmente em, pelo menos, dois hospitais.
Num fazia plantão noturno, no esquema de 12/36h.
No outro, trabalhava todos os dias a partir do meio-dia, turno de 6h.
Uma manhã sim, uma não, tinha algum tempo para fazer as coisas da casa, ver como andavam as crianças, resolver problemas na escola, ver as roupas que usavam.
O marido, nem encontrava a maior parte do tempo.
Ultimamente sim. Desde que ele perdera novamente o emprego.
Mas nem valia a pena.
Já não tinham mais quase nada em comum.
Ele reclamava que ela estava sempre cansada e apressada.
Ela reclamava que ele, que agora tinha mais tempo, podia, mas não ajudava em nada.
Só se acertavam em concluir que tudo estava difícil, que o dinheiro não dava. Que estava tudo mais apertado.
Decidiu então que mais uma vez, pediria para ser demitida do emprego noturno.
Jurou que seria a última vez.
Trabalhava há tanto tempo ali.
O Administrador e Presidente do hospital a conhecia desde menina.
Sabia o quanto ela valia o pequeno salário que recebia.
Daria valor. Não iria querer perdê-la.
Principalmente nos plantões dele que eram os mais movimentados.
Parece que trazia paciente de caminhão para operar.
Passava a noite inteira operando. Ninguém tinha sossego ou descanso.
Até ele mesmo ajudava a tirar paciente da mesa, a puxar maca, a buscar material e preparar as salas.
Ela nunca reclamava, sempre trabalhava de bom humor.
Mas os tempos estavam difíceis para todos e ele não queria fazer o acordo.
Ultimamente o ministério do trabalho andava de olho em tudo.
Se fizesse acordo com ela acabaria tendo que fazer com outras também.
Muita coisa estava em risco.
Mas ela precisava, ele sabia.
Acabou, a contragosto, concordando.
Ela pegou todo o dinheiro naquela manhã e antes de ir para o outro trabalho, foi em casa ver como distribuiria a pequena soma.
Antes tinha que passar no açougue e na venda pagar a conta atrasada, deixar a comida em casa para as mais velhas prepararem e tomar um banhozinho rápido.
O banho foi frio. Já tinham cortado a luz, também atrasada no pagamento.
Por sorte encontrou o marido quando já estava saindo. Deu-lhe as últimas cédulas para que pagasse tudo e mais o religamento.
Saiu com os bolsos vazios e a cabeça cheia de preocupação. Ia ter que se virar até chegar o pagamento do outro hospital.
Ele foi para o outro lado. Como tinha que pedir o religamento, ia pagar na lotérica próxima ao terminal da companhia de Luz. Matava dois coelhos.
Saiu da companhia ainda com um troquinho no bolso.
Reparou no cartaz da Mega. Tava acumulada novamente.
13 milhões. Ô numerozinho mais chamativo.
Até irritava.
Aposta mínima, um real e cincoenta centavos.
Nem olhou direito. Jogou os mesmos números de sempre. Um dia dava.
Ainda sobrou pra um copinho, que ninguém é de ferro.
E voltou para casa, que naquele dia não adiantava mais procurar emprego.
Ela continuou na sua rotina. Sem final de semana, sem descanso. Empurrando o aperto para o próximo mês.
Fazia o "samba do crioulo doido". Hoje pagava aqui, amanhã ali.
Se Deus quizesse o marido logo arranjaria outro emprego o que a deixaria mais aliviada por alguns meses.
Na segunda feira, chegou do plantão e foi logo dormir. Estava morta.
Domingo mais triste esses com lua-cheia. A semana já começa acabada. Não sobra ânimo.
Acordou logo depois do que pareciam minutos e já estava se arrumando para o outro trabalho.
O marido não apareceu.
Nem pra almoçar.
Será que tinha arrumado emprego??
Quando voltou à noite viu a casa toda iluminada. Uma balbúrdia.
O pequeno correu para seu pescoço de tão feliz.
O sonho dela tinha acontecido com o marido.
Ele tinha ganho sozinho.
13 MILHÕES!!!
Meu Deus!! Nem podia ser verdade.
E já tava todo mundo lá.
Todo mundo já sabia.
Ela não precisava mais trabalhar.
Ela ia virar madame.
Iam comprar carro, mudar de casa, trocar os piá de escola.
Ela podia ficar em casa cuidando dos filhos.
Ela não precisaria mais trabalhar nem sair.
Só para caminhar na ciclovia, fazer exercício. Consultar médico bacana.
Fazer plástica.
Recuperar tudo o que tinha perdido.
O tempo com a família.
A beleza. Os anos.
Se livrar de todos aqueles quilos a mais, de comida ruim mal comida.
Foi em seus empregos se despedir.
Agora só ia voltar ali como paciente. Já tinha falado com o Dr Fulano.
Ia fazer tudo junto. Tirar o útero, plastica de abdomen, redução de mama.
Contratar massagem, comprar as cintas.
Mudar o guarda roupa.
Jogar tudo fora.
Nova casa tudo novo.
Casa enorme, em rua de rico.
E o marido, de carro novo, desaparecia.
Contratou uma empregada e só vinha pra janta. Quando vinha.
O dia inteiro passava fora.
Perto, nem chegava. Mesmo porque ela tinha que se recuperar das cirurgias.
Passava os dias sozinha.
Todas as TVs estavam ocupadas passando os programas preferidos de cada filho.
Ela já tinha enjoado de todos os programas.
Nem sabia mexer direito nos controles.
Suas amigas nunca mais encontrava. Todas trabalhavam.
Mas a casa vivia cheia.
Sogra, parentes, gente que ela parecia nem conhecer.
No começo, depois das cirurgias, ficava muito no quarto.
Foi melhorando. Mas continuou lá.
Não tinha vontade de sair. Não se sentia bem em sua casa.
Aos poucos foi se interando do que acontecia.
O marido tinha outra mulher.
Mais nova que ela, claro.
Já estava com essa há muito tempo. Antes de acertar a Sena.
Ela conhecia seus filhos e se dava bem com eles.
Se dava bem com a sogra.
Tinha uma casa igual ou maior que a dela.
Tinha um carro novo e sabia dirigir.
Ia a festas, frequentava. Tinha uma porção de amigos.
Quis reclamar com o marido que não fez muito caso.
Se ela quisesse, podia ir embora. Voltar para sua vidinha "sem graça" de só trabalhar.
Ele não queria isso. Achava que era justo que ela tivesse uma vida mais sossegada.
Mas se ela não quisesse, podia ir embora.
Ela era dona da vida dela.
Ele era dono do resto.
Os filhos podiam escolher.
Tinha certeza que ela podia realugar o barraco onde moraram.
E que ela conseguiria pagar o aluguel e viver tranquila com o salário que tinha antes.
Mas se aceitasse tudo o que já estava acertado, teria uma vida sem trabalho.
Ele não iria mandá-la embora.
Nem impedir que fosse.
Ficasse e seria conforme a lei do dinheiro dele.
Vida boa e farta. De mulher de bem. Cuidando dos filhos.
Com todo aquela casa só para aproveitar.
Ela tentou ligar para as ex-amigas. Queria se aconselhar.
Mas as coitadas tinham que trabalhar. Correr atrás do pão de cada dia.
Ela tava com a vida ganha. Elas não.
As "novas amigas" ela não conhecia.
A gente, depois que ganha tanto dinheiro assim, não tem mais amigos.
A gente até desconfia de todos.
As vizinhas ela não conhecia
Visitou alguns médicos.
Conhecidos seus.
Com alguns teve vergonha.
Com outros tentou se abrir.
Todos a aconselharam a procurar psicólogo, advogado, seus direitos.
Ela só queria a sua família. Aquela por quem tinha trabalhado tanto para manter.
Não podia tirar o pai cheio de dinheiro dos filhos.
Não podia tirar dele o direito de viver como quisesse.
Ela tinha sido boba.
Tinha sido cega.
Tinha pensado só em dinheiro.
Só em trabalhar.
Era justo que ele procurasse alguém que desse atenção que ele merecia.
O sonho virou uma gaiola dourada.
Ela um pássaro sem voz.
Dinheiro não lhe trouxe a felicidade.
Antes ele nunca tivesse jogado.
Ela nunca vai jogar.
Ela só queria a sua vida de volta.
Isso, a Mega Sena super acumulada nunca vai trazer.
Foto: Blacklog Feature, Fashion
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
"A hora do encontro é também despedida"

Não fiz retrospectiva e nem tão pouco carta de intenções.
Fiz sim, alguns esboços de movimentos de mudança e iniciativa.
Termino o ano obrigada a me submeter a algumas "verdades" a meu próprio respeito.
Obrigada a operar o meu braço esquerdo a despeito da cirurgia do direito (há 8 anos) não ter sido exatamente um sucesso.
Sem ter conseguido ler os 50 livros do desafio da Confraria em que entrei. Devo ter iniciado um número próximo, mas, como sempre, sigo a lê-los todos juntos.
Não corri São Silvestre, nem nenhuma outra prova legal desde junho e minha quase fratura de stress nas duas tíbias, e quase meu pior tempo de Maratona na do Rio de Janeiro.
Mas inicio 2010 cheia de esperança de encontrar e cumprir novos desafios.
Assumindo um novo Serviço.
Decidida a acabar com minha deficiência visual decorrente do excesso de anos vistos e vividos.
Inscrita num novo curso, numa Universidade em outra cidade.
Uma série de promessas...
Todas brilhando no horizonte desse Novo Ano, que nasce colorido e cheio de força de sorrisos e olhares desses lindos seres que povoam nossas vidas.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Um crime de presente
Somente chegando bem próximo foi que ela conseguiu ver que se tratava de quatro lâmpadas fluorescentes colocadas duas a duas. De longe, no escuro, ela olhou e achou que pareciam pernas de alguém que tivesse maldosamente sido enfiado ali. Um manequim ou uma boneca. O efeito era um pouco macabro e engraçado.
Lembrou do pedido de sugestões de como se livrar de um corpo fruto de assassinato, feito pelo novo amigo distante. Para um crime longe de perfeito, uma maneira inusitada.
Poderia funcionar.
Dependendo do tom que se quisesse dar à história.
E lembrou também, na continuidade, da receita antiga, de Clarice Lispector, para se livrar das baratas de forma asséptica: servir-lhes uma mistura de partes iguais de açúcar e gesso. Ao entrar em contato com o líquido do sistema digestivo das pequenas bestas, a deliciosa refeição endurece e petrifica. Mostrando " duas vantagens: alem de acabar com elas de forma limpa e indolor, transforma-as em pequeninas estatuetas que podem ser usadas na decoração. "
Claro que com um corpo humano não seria tão fácil assim. Pensou então outras alternativas.
Lembrou de um filme muito antigo, The Mystery of the Wax Museum de 1933, onde o vilão submergia as vítimas num banho de parafina quente, depois as imortalizava como personagens universais, em seu Museu de Cêra.
Modernamente podia utilizar resina. Ela já tinha inclusive lido sobre os passos básicos da plastinizaçāo, o método usado por aquele homenzinho maluco e polêmico, agora mundialmente famoso, na arte de conservaçāo de cadáveres humanos em prol da ciência e da arte.
Para jogar o corpo no lixo, parecendo um manequim velho, não precisaria nenhum refinamento do processo. Bastaria uma banheira de formol, seguida de acetona por uns dias e depois outra de resina e um varal forte o bastante.
Vistas de longe, no escuro, "as pernas" pareciam as de uma mulher magrinha, ou melhor, magérrima, de estatura média/baixa. Sabia até quem se encaixava direitinho no perfil. Aquela secretária antipática da tesouraria do hospital. Faltava apenas um motivo melhor que o fato de ela ser enxerida, invejosa e implicante.
É. É isso. Falta apenas um motivo interessante.
Pronto.
Com quase todos os ingredientes, já tem um projeto e a história de um crime.
Um enredo policial.
Uma desculpa para começar o ano de uma maneira diferente.
Perpetrando um crime, absurdo, irreverente.
Com ambições literárias.
Photo date: 1933 Lionel Atwill, Fay Wray, MYSTERY OF THE WAX MUSEUM, THE, Warner Bros., 1933, **I.V. - Image courtesy mptvimages.com
PS. Terráqueo um presente sempre atrai outro, não igual, mas recíproco. E você foi um presente de outro presente. Fomos "dados" pela Bípede. Como é delicioso esse nosso mundinho redondo numa volta ou outra. Isso nos mantem girando. Quando não, nada que um samovar de vinho, não resolva.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Prá o Natal e prá o Ano
Por que já é dia 24 e eu ainda preciso de um dia 22 e outro 23 para dar conta de tudo.
Por que com uma mão só, sou muito lerda.
Para os meus amigos daqui, de lá e de acolá. Talvez mudasse algo, mas gostei imenso e mesmo não sendo meu, vou compartilhar.
Lud, obrigada.
Queridos meus, FELIZ NATAL!!! Do jeito que der e vier.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Tanto amor
Sábado pela manhã, enquanto tomava meu café e lia meus e-mails recebi esta imagem de uma amiga que recebeu de um amigo.
Ambos são patologistas e ganham a vida vendo, analisando e diagnosticando imagens de doença e morte.
Nesta manhã, de presente, ele encontrou essa imagem. Mandou para ela que encaminhou para outros amigos entre os quais me encontro.
Brinquei com ela perguntando se eram histiócitos fazendo uma declaração de amor ou um câncer dizendo que só o amor te salva.
Ela riu e prontamente respondeu que, com efeito, trata-se de um carcinoma ductal mamário - o material do centro é necrose - esse é o tal do comedocarcinoma ruim pra kct.
E lá estava a imagem tão bonitinha, de um câncer de mama assumindo a forma do coração em cartão postal do Dia dos Namorados.
A morte assume estranhas formas.
A vida também.
Normalmente escolhemos qual queremos ver.
Não pensamos nisso.
Não gostamos de pensar.
Deveríamos.
Os cientistas dizem que os cânceres são causados, na sua maioria, por grandes traumas sofridos.
Na minha prática médica normalmente encontro também essa relação.
A dor extrema sofrida e não metabolizada, causa uma morte dentro de nós.
Essa morte cedo ou tarde, se manifesta em alguma parte do organismo.
A dizer-nos: "decifra-me ou te devoro".
Muitos amores na nossa vida fazem o mesmo.
São os desencadeantes do trauma que origina o tumor.
Que vem duramente nos dizer que devemos aprender a amar a vida.
Tantos andamos morrendo por aí.
Tantos outros matando. Matando-se.
E um patologista ao ver o resultado encontra uma declaração de amor à vida.
Foto: comedocarcinoma - carcinoma ductal de mama. Clóvis Klock
sábado, 5 de dezembro de 2009
Sonho
separados em camadas por folhas de tecido branco como papel.
Pareciam gravetos de árvores milenares que estivessem empilhados
de forma ritual para fazer o papel.
O altar era uma grande pira construída no meio do enorme páteo,
atrás da casa branca e moderna.
O páteo mais baixo, visto da rua, parece um grande altar,
ou um pavilão de festas.
Em frente a imensa pira crematória dos corpos negros imolados
em direção poente, havia um grande painel com imagens gigantes da luta
entre eles e os brancos, loiros, nórdicos.
A atmosfera era solene e em tudo pairava uma névoa de intenso pesar.
As almas choravam a dor de toda a humanidade perdida.
A menina passou no sonho e acordou com o peso de tudo em sua pequena alma.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Braços
Como dois seres com vida própria, destinados a estarem colados e seguirem acordando em tudo.
Nem sempre conseguem. E, hora ou outra, algum se rebela.
Vai para o outro lado.
Desavisado.
O propósito instantâneamente mudado, quebra o movimento.
Inadvertido, salta fora.
Cambaio, dói e estaca.Contrafeito volta ao lugar, do outro lado,
O que já não cabe mais.
Arde para se acomodar.
E não acomoda.
Disfarça e faz-de-conta.
Mas o equilíbrio tarda.
E logo o pulo aparece.
Delata o desencontro.
Explicita o vacilo.
Escancara a brecha no ser!
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Pela fresta do Valle
Saudades de meus amigos daqui.
Não sei onde me perdi.
Custo a me encontrar.
Li, de uma quase xará, um texto forte e quente.
Me acendeu. Me animou.
Dei só um pulinho.
Saudades de mim.
Hoje é só assim.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Nem só de pão vive o homem
Recebi hoje este texto e achei a ideia o máximo. Sei de mais gente que vai gostar, por isso estou postando aqui. Se mais gente tivesse ideias como esta...Fica como ideia e presente de páscoa.Vale mais que um trocadoAmbulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu viRodrigo Ratier (rodrigo.ratier@abril.com.br) CAMINHO LIVRE A cada livro oferecido em vez "Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações. Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais. Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo: - Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler. Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu: - Em que ano você está? - Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.
http://revistaescola.abril. |
sexta-feira, 27 de março de 2009
Deslize

Acordou como se tivesse deitado na sexta feira e apagado o final de semana.
Não pela quantidade de sono dormido.
Pela nulidade de tudo.
A manhã, cinza, recepcionou-a, fria.
A emoção não chegou aos poros do dia.
O dia não coadunou com a ausência de sinais.
Nem o sol, quando atravessou a pesada cortina da vida, trouxe-lhe algum calor.
Nenhum doce afago encostou ser ser.
Como um robô destemperado, saculejou as vértebras e as juntas para fora do leito, duma maciez hipócrita e mentirosa.
Procurou em vão, suas conexões.
Todas partidas.
A fuga generalizada dos sentidos de dentro e de fora.
O chão não a sustenta.
Paira irrevogável no intervalo da personagem.
Engole em seco o gosto mofado dos verões e primaveras perdidos.
Anseia pelo mar.
Pela areia fria e molhada lhe envolvendo os pés, devolvendo seu andar ao ritmo de marés pontuais.
Foto: Gold Cost-Austrália por André Ambrosio
quarta-feira, 11 de março de 2009
Confeccionário
Não ando em mim.
Melhor, dizer a verdade: ando.
Apertada, encolhida em alguma parte que não sei onde.
Perambulo, em algum exílio dentro deste corpo que se amotinou.
Não fui correr.
Não consigo me disciplinar.
Meu atraso crônico agora me alcança.
Não consigo chegar em mim.
Não consigo sair de mim.
Ando pendurada pelo trapézio direito.
Sonho, e pela manhã, o travesserio não solta o gancho de meu ombro.
Meu pescoço pesa uma tonelada e abigorna minha cabeça.
Sou uma miríade de pedaços doloridos e desencontrados.
Roubo prazer e desperdiço nos desencontros de minha carne.
Os sentidos esbarram nos músculos contraídos.
As sensações se perdem no labirinto "circunvoluntário" do cérebro.
A noz do universo particular quebrada e sêca.
A nova ortografia em pergaminho perdida na pessoa desencontrada.
O rio corre sozinho.
Meu banho atrasa como a vida.
Não me encontro.
Nem meu hoje.
Nem paro.
Nem desespero.
"Hormônimo"!


















