sábado, 31 de janeiro de 2009

Selos e selos

Com toda essa festa das premiações com selos, tenho passeado bastante e conhecido outros blogs.
Numa dessas idas incertas, encontrei o Lector in Fabula e conheci um outro selo, do qual gostei tanto que resolvi pedir para mim.
Este selo é mais que uma brincadeira. É um desafio muito legal.
Pedi e ganhei o selo.
Entrei no desafio, que para mim é bem difícil.
Já me explico por quê: adoro ler e ando sempre com um livro para cima e para baixo. Um no mínimo. Esse é o problema. Começo uns 5 ou 6 ou mais livros de uma vez. E cada vez que algo ou alguém, me sujerem um novo, vou atrás e compro e inicio. Além disso, tenho uma vida prá lá de agitada e adoro uma porção de coisas: correr, sair, papear, ler blogs, conversar neles, a partir dos comentários de que gosto entrar e conhecer outros blogs, trabalhar, fazer bebês nascerem, conversar interminavelmente...
Então, por conta disso, esse desafio torna-se realmente isso. Uma coisa que tenho que me dar forças para cumprir.
Vamos ver se consigo.
Janeiro terminou e eu consegui terminar o primeiro livro.(Enquanto os ouros cinco começados vão indo, sendo lidos).
Esse que terminei é até covardia.
É um livrinho pequenininho (mesmo, tem 10/7cm) e é, no dizer de um outro leitor, um mimo.
O autor é Mayrant Gallo, bahiano de Salvador, poeta e contista.
O mimo tem 18 contos quase policiais, quase fantásticos. Todos curtinhos e maravilhosos.
Você começa a lê-los despretensiosamente e fica completamente presa no pequeno volume de 120 páginas. Deliciosa prisão. Pequenas histórias que sugerem mais que contam, grandes histórias. O leitor entra num mundo fantástico de muitas dimensões. A real é a mais incrível delas.
O livro foi um presente que ganhei do autor, que conheci aqui, pois ele tem um blog com o desafiante nome de: Não Leia!
Graças a Deus sempre fui teimosa como uma mula e a melhor maneira de me fazer fazer alguma coisa sempre foi, dizer-me para não fazê-la. E descobri assim, um blog literário excelente e um escritor, poeta e contista brasileiro, com alma nórdica, e espírito brilhante de cuja existência jamais suspeitaria.
Dele também o próximo livro que já comecei, publicado pela Cosac & Naify: O Inédito de Kafka, também de contos, e outro de poesias que li ano passado: Recordações de Andar Exausto.

Para dar aguá na boca e alimentar a curiosidade aí vão os nomes dos contos, e um trexo do conto que dá nome ao livro:
Esqueleto/A derrota/A última cena /O espelho/O intruso/Solidariamente/Um natal/O gato de dois rabos/Um braço na noite/Cabelos/A felicidade/Dizer adeus/Não fui eu/O amor não escolhe/Manhã simples/Vida nova numa enorme casa/Chuva/Mãos dadas.

...

-O que é pior para você? - perguntou ao amigo - Esquecer uma mulher que amou ou não ter em seus braços uma outra que ama, que deseja? Ou ambas a
s situações são idênticas, de uma melancolia insuportável?

...



quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Sem Permissão Concedida.

Sem tempo para postar e fazer tudo o mais que quero.
Achei esse post num post de outro post.
Pedi e não esperei permissão.
Agradeço a Ana do Certezas Biodegradáveis que me levou lá.
Agradeço ao Ulysses do Esquerda Festiva, mesmo sem ele ter tido tempo de dar o pode.



domingo, 25 de janeiro de 2009

Premiação



Há quase 1 ano comecei esse blog.
Incentivada por uma amiga maravilhosa eu criei coragem e comecei a tornar públicas, coisas que tinha escrito há muito tempo e coisas que fui e vou escrevendo quando posso, quando tenho que, quando me dá vontade.
Já contei isso aqui mais de uma vez e não vou entrar em detalhes repetitivos.
Desde que iniciei as postagens me senti entrando num mundo diferente e delicioso.
Recebo visitas e visito pessoas e lugares maravilhosos.
Virtuais sim, mas tão reais e próximos como os que visito diariamente em minha vida fora do computador. Ou mais.
Aqui, são pessoas de procedências e vidas e idades e credos, as mais variadas possíveis.
De qualquer maneira comungamos coisas. Uma delas, essa paixão: palavras, idéias, pensamentos.
Não sou boa nas questões concernentes ao funcionamento destas maquininhas maravilhosas.
Muitas coisas não sei fazer e sou lerda demais em realizar qualquer procedimento. Levo horas tentando anexar uma foto, incluir um gadget ou outras coisas.
Sou absolutamente prolixa e porque não dizer, datada? Como digo no meu perfil, sou absolutamente adepta e fã do "aqui e agora", mas trago comigo as marcas de já bastante tempo nesse planetinha azul.
Aprendi a ler em livros, a escrever a lápis para depois usar caneta tinteiro. Esferográfica só no ginásio. Aos 13, fui aprender datilografia e um de meus maiores presentes foi uma Olivetti branquinha, portátil.
Chega.
Pouparia todos colocando minha data de nascimento.
Mas tudo isso é só para dizer que fiquei agradavelmente surpresa quando cheguei em casa ontem, já bem tarde, e na minha olhada de boa-noite ao meu lap, encontrei um e-mail dizendo:

Olá.
Você recebeu algumas premiações.
Passa lá no 100fdmstos e dá uma olhada.

Foi o que fiz.



O 100 Fundamentos é o blog do Ricardo Tadeu que faz parte dos Meus Passeios Preferidos, a lista de blogs que acompanho, e ele estava me passando um meme-selo que havia sido enviado a ele por outro blog amigo, e que faz parte de uma brincadeira; e mais três selos enviados por outra amiga de outro blog.

Então aí vai:




Estes são o meme e o selo e para repassá-los deve-se seguir as seguintes regras:
-Colocar o link de quem te indicou para o meme-selo;
-Escrever essas 5 regras antes de seu meme para deixar a brincadeira mais clara;
-Contar 6 fatos aleatórios sobre você (essa é a proposta da brincadeira);
-Indicar seis blogueiros para continuar a brincadeira;
-Avisar esses blogueiros que eles foram indicados.

Então:
- O link de quem me indicou: http://ricardothadeu.blogspot.com ;

- As regras ali em cima;

- 6 coisas sobre mim:
1. Sou louca por livros,
2. Sou louca pelo que faço (tudo),
3. Faço nascer em média 5 bebês por mês,
4. Gosto de escrever,
5. Gosto de brincadeiras inteligentes, jogos, amigos, música, livros...
6. Não consigo jamais ser concisa. Abundo em retiscências.

Os outros selos são:





























E dos muitos blogs que visito e passeio, os seis que indico, por razões também variadas, são:


E eu teria 6 vezes mais 6 para indicar. Mas estaria extrapolando a "brincadeira".
Por hora aqui fico, passeando nos blogs maravilhosos que me levam a outros e preenchem mais minha vida.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ao Adiamento


Então hoje para.
Fica tranquila, ou triste, ou simplesmente fica.
Contigo e em ti.
Amanhã pensas no amanhã e depois.
Hoje pensa-te. Hoje aproveita para olhar-te e ver quem és.
Ou despedir-te de vez, ou por uns tempos, de quem não és. De quem terias sido. De quem querias ser.
Hoje apresenta-te a ti. Dá-te tempo de te conhecer e te gostar.
Hoje encontra contigo. Bebe uns copos. Brinda o encontro.
Hoje é teu dia.
Amanhã, tu pensas depois.
Sempre depois.
Hoje, deixa para viver.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

ÊXTASE



É quando me sinto embriagada,
levemente,
e a superfície começa a anuviar-se e adensar seus limites
com a névoa dos símbolos,
todos os barulhos, as vozes, as músicas,
misturando-se e confundindo-se,
que, abrigada pela dissolução,
submerjo-me no âmago do meu ser.
E sorvo grandes goles.

Foto:Andrzej G.http://8292.openphoto.net

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O poeta no meio do caminho



A menina não conhecia poesia.
Sabia é claro recitar e cantar, samba le-lê e batatinha.
Sabia a canção das ondas chegando na praia.
Sabia o canto dos passarinhos na algazarra urbana.
Não tinha muitas idades.
Sabia porem, que o poeta morava em seu caminho.
Sentadinha no ônibus para a escola, sempre à janela,
levantava-se ao passar diante do prédio.
Sabia que era ali.
Ali morava o poeta.
Ela levantava em reverência, sem nada dizer.
Não sabia o que ele tinha escrito, sobre a pedra no caminho
sobre a máquina do mundo, sobre a morte do leiteiro.
Mal aprendera a ler.
Sabia por saber.
No seu coração a poesia teve letras depois.
Um dia no seu caminho, passando na frente do prédio do poeta
viu-o saindo no portão.
Passo certo, como que tímido. O homem por detrás dos óculos e do bigode.
Ela gritou para os amigos, como se visse um carrossel:
Olha lá, é o poeta, é o poeta.
Seus olhos brilhavam contentes.
Seu coração não perguntou nada.
Ela sabia que ali morava a poesia.
Continuou nos outros dias a levantar ao passar.
As pernas no ônibus não eram vistas.

Hoje ela toma vinho
E fica comovida como o diabo quando lembra
do dia em que tinha um poeta no meio do seu caminho.

Foto de Dauro Veras - carrossel no parque da cidade - Brasília

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Nós e os livros...

Recebi a brincadeira da Ana Paula, mando adiante para: Ju, Claudinha, Bípede, e a Fabi... por enquanto. Ah, ainda que atrasado para o Mayrant.

1. Livro que marcou sua infância: Meu Deus, vai faltar espaço no blog. Começou com A Galinha Ruiva, aos 4 anos, depois veio "O pequeno mágico Popilo", daí "Reinações de Narizinho", "Os Contos de Andersen", "A Ilha do Tesouro", Tom Sawyer e Huckleberry Finn", "Moby Dick", "Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho", e "Mulherzinhas".
2. Livro que marcou sua adolescência: "Sidharta", "O Profeta", "O Egipcio", "Shakespeare", "Orgulho e Preconceito", "O morro dos ventos uivantes", "A Lagoa Azul", "Julio Verne", "Demian", "Cem Anos de Solidão"
3. Autor que mais admira: Guimarães Rosa e Shekespeare.
4. Autor contemporâneo: José Saramago, Paul Auster, Garcia Marques.
5. Leu e não gostou: Sex & City.
6. Lê e relê: "Grande Sertão Veredas" do Guimarães, "O Jogo das Contas de Vidro" do H. Hesse, "Laços de Família" da Clarice.(Pedaços na maioria das vezes.)
7. Mania: sublinhar a lápis os trechos de que gosto mais. De escrever coisas que me veem à cabeça nas folhas livres dos livros. Cheirar livros. Comprar os livros pela Capa e pela orelha.
Querer ter todo livro que eu vejo.
Acrescento mais um tópico:
8. Livros que quer ler: "As mil e uma noites" essa última edição traduzida direto do árabe. D. Quixote, também a última edição que saiu em Espanhol.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Bopy I

Bopy era o autêntico Vira-lata.
Desde que Ela lembrava existir, lá estava ele.
Branco com manchas café-com-leite. Porte médio. Esguio. Parecendo até fracote. Um olhar doce e sagaz.
Por tudo andava atrás do Dono. O gigante de bondade que ele adorava.
Mas era muito independente.
À dona da casa, obedecia apenas quando queria ou achava que devia. Tinha hombridade. Fidelidade de gênero.
Nas tardes modorrentas deixava-se ficar em qualquer canto. Nos dias de frio buscava os lugares embaixo das janelas, com uma nesga de sol.
Deixava-se tocar a vassoradas e saía na balada, fingindo perseguir os urubus, ou algum gato ousado.
Manhã cedinho, sol ou chuva, saíam os dois.
Entravam no galinheiro e a algazarra era geral. As galinhas corriam a esconder-se entre as hastes do pequeno canavial, onde escondiam os ninhos. Ele achava. Latia alto e estacava avisando o novo. Adorava ovo quente.
Supervisinova o cortar da lenha e seu organizar na casinha que nem era de cachorro, muito grande, nem de menina, suja, cheia de lenha.
Depois debandavam para a rua. O grande velho de chapéu e bicicleta. A imensa Monark, branca e amarela em que Ela, depois, ainda muito pequena, rodava também a cidade, pedalando retorcida por dentro do arco.
Todos conheciam aquela dupla. Bopy e o Sr. Cruzador, como era chamado.
Um trocadilho com seu nome que rimava com corveta mas que pela força da sua estatura, virou Cruzador.
Ele tirava o chapéu e cumprimentava a todos com um sorriso e um "Alles blau".
Tinham a mesma ginga. O mesmo olhar. Doce e sagaz.
O homem parecia mais forte do que era. Tinha a delicadeza de espigas, do bambu. Bailava ao sabor do vento que lhe esbarrava, para não fazer estrondo.
Aquele dia iam todos à rodoviária.
O cão doce, o Dono gigante, a Dona da casa, pequena "dondolante", com a determinação de pedras. Que os dois amavam e temiam.
Levavam a filha do meio, o marido e as duas meninas à tomarem o ônibus de volta para casa.
A menorzinha ia ao colo do pai. Ela, a pequena, de mãozinha com o avô.
Olhava o cão. Sentia.
Havia uma atmosfera de eternidade.
Uma despedida de cor não explicada.
Não prestava atenção as palavras. Via os elos quebrados. Os olhos abaixados.
Consternação.
Seu coração pulava grande, empurrando o pequeno peito.
Os pézinhos céleres queriam ficar com a agilidade do cão.
Sua liberdade.
Ele andava. Parava. Marcava um poste.
Cheirava um qualquer-coisa na beira da calçada. Inspecionava portões.
Vigiava esquinas.
Na última quadra, antes de dobrarem à direita para chegar no largo da rodoviária, o grande portão parecia fechado. A parte inferior era ferro carcomido, chapa única como saia.
Ela passou a meio da altura da saia enferrujada.
Despercebeu.
Só escutou o trovejar, a mãe e a avó gritarem.
O grande homem chamou.
Deus não intercedeu.
Uma enorme massa escura de pêlos bravios engalfinhava-se com o escudeiro malhado.
O pai com a menorzinha queria puxar a arma.
Primeiro para salvar.
Depois para sacrificar.
O grande homem, sentado ao meio fio segurava o Vira-latas, segredando poções em sua orelha cadente.
O sangue emprestava uma cor de raiva, ao lado da face, à jugular exposta.
A camisa era velha. Uma tira envolveu o pescoço do cão.
Cabisbaixos seguiram a distrair-se com as araras do pátio da rodoviária.
Confundindo o vermelho com os gritos estridentes.
Disfarçavam as dores.
A menina então, já dentro do ônibus, no cantinho apertado entre as pernas da mãe e o braço da poltrona, escondeu o rosto na janela e deixou que o coração e o entendimento escorressem pelas faces e pelo vidro.
Abanava ao trio lá fora.
Dizia adeus ao seu porto.
Lavava o sangue com o sal de seu amor.

Mãe de Cachorro


Ganhei da Ana Paula o selo Mãe de Cachorro.
Eu e outras pessoas, algumas das quais conheço como blog amigo.
Fiquei muito honrada de estar nesta lista, na companhia daquelas pessoas.
Não sou propriamente uma mãe de cachorro. Se fosse, provavelmente me seria tirado o pátrio- poder. Não paro em casa, não tenho horários. Até minha gata Sophia, sabidamente independente, sofria de "mancanza". Era super carente, tadinha. Mas me ensinou, e muito, a me virar.
Um dia, vou ter um cão. E vou poder passar muito tempo em sua companhia.

Brigada Ana, pelo selo e pelas coisas gentis que dizes na entrega.

PS. A mãe da Ana, que também é mãe de cachorro, o Otto, está de parabéns hoje.
Pelo seu aniversário . Muitas felicidades.
Pelos filhos que tem.
Beijão para D. Conceição.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Últimas linhas do Ano


"Então é natal..."
Já era! Foi.
Resta esperar o próximo. E, como disse minha amiga Ju, fazer de tudo para que ele demoooore bastante para chegar.
Esse passou Suuuper rápido. Chegou e foi.
Para mim, como para tantos, o ano inteiro passou muito rápido.
E não vou dizer que não vi passar.
Embora a idade tenha lesado bastante minha visão física ou externa, fez exatamente o contrário com a outra visão.
Falo de uma visão mais sutil. Ampliada, que percebe inclusive e principalmente as coisas que não se vê.
Vi cada dia desse ano que passou. E em muitos deles desejei um bonus de algumas horas a mais.
Esse ano, vivi o tempo todo e cada vez mais conscientemente a sensação de que a vida é curta. Que "o tempo ruge" como diz Anamaria. Cada vez mais tenho a certeza de que cada minuto tem que ser intensamente vivido. Como se fosse o último.
Claro que, vivendo assim, fazendo as coisas de última hora, sempre atrasada, sempre achando que dá tempo de fazer alguma coisinha a mais, eu acaba não dando conta de tudo.
Acabo não conseguindo encontrar todas as pessoas que queria, fazer todas as coisas que gostaria e planejei.
É muuuito difícil viver no meu ritmo.
Às vezes até para mim mesma.
Com relação ao Natal, por exemplo: funciono, há muito tempo, praticamente na contramão de todos os outros, ou da maioria das pessoas que conheço.
Há muito tempo que, por via das circunstâncias, não passo aquele Natal de Família, junto com a minha família (mãe, irmãos, tios, primos...). Coisa que costumávamos ter, quase como religião, até que morreu minha avó, a grande Matriarca do clã.
Já naquela época, devido a minha escolha profissional, deixei de ir em muitos Natais.
Ficava em casa, ou na cidade onde moro, esperando os "meninos e meninas Jesus" nascerem.
Ia encontrar amigos. Ou simplesmente ficava verdadeiramente em casa, só. Não sozinha. Na minha companhia. Com a Sophia a minha gata. Com filmes incríveis. Com ótimos livros. Às vezes com, às vezes sem enfeites natalinos a minha volta.
Às vezes tendo realmente que sair de casa para aparar ou arrancar algum Jesuzinho do ventre materno.
Toda aquela azáfama de compras, enfeites, receitas, ceias, como as "Jóias da Família" contou ficava para mim, como sendo vista através de um túnel, uma vitrine, uma tevê .
Com a desculpa de outras coisas por fazer, apenas observava, sem mergulhar com unhas e dentes na loucura consumista obrigatória.
Este ano foi diferente, ainda mais.
Com meu filho, que mora fora, combinei que passaríamos juntos. Em NY. O templo máximo do consumismo. O ponto do planeta mais falado, mostrado e festejado, em natais Hohollywoodianos.

Com a crise, a queda do mercado, a alta do dollar, esse seria nosso presente máximo.
Andando na quinta avenida, na Madison, na Broadway, passamos por milhares e milhares de pessoas de tudo quanto é nacionalidade, raça e credo.
Estávamos em Babel.
Embora houvesse por todos os lados milhares de enfeites e músicas de natal, as pessoas olhando, comprando, dizendo Christmas Christmas o tempo todo, tudo parecia uma azáfama geral e não realmente as vésperas do Natal.

Jantamos tranquilamente num restaurantezinho charmoso que encontramos numa praça e fomos para o hotel descansar depois disso.

Foi um natal cheio de paz e tranquilidade. Em família reduzida. Mas rodeados da lembrança de todos os nossos queridos. Conversando "del più e del meno", dos parentes, dos amigos, como há muito não fazíamos. Comemos bem, bebemos um bom vinho, e comungamos um Natal muito feliz.

Então, foi-se mais um Natal.

E chegamos no último dia desse ano de 2008.


Que começou numa festa com amigos depois da São Silvestre, em Sampa.

Que foi inteiro corrido. Que me permitiu fazer uma porção de coisas novas. Que me permitiu ir longe.

Depois de muito tempo, foi um ano, com férias deliciosas, com viagens, com reencontros maravilhosos.
Revi amigos de tanto tempo, revivi emoções, vivi novas.

Comecei este blog. Onde pela primeira vez tive coragem, no início disfarçada, depois escancaradamente, de mostar coisas muito íntimas minhas.

Publiquei, pela primeiríssima vez na vida, 3 poemas em um livro de verdade.

Poderia, e gostaria até de fazer aqui uma lista dos pontos altos do ano como a Aline.
Mas, comigo o tempo sempre ruge, sempre é pouco, sempre é muito.
Já não vou mais fazer nada disso.

Também não vou fazer minha lista de intenções. Tenho-as muitas. Se fizesse seria igual ou muito parecida com a da Vanu, que fez logo uma carta e pendurou-a em seus lindos varais.
A mais linda que li nos últimos dias.

Vou só deixar aqui o meu muito obrigada, o meu carinho e o meu desejo de um Ano incrível para todos os meus amigos, os meus leitores, os meus interlocutores mais que válidos que tenho encontrado pela blogosfera e por essa esfera azul onde vivemos.

O meu desejo de um ano cheio de tudo o que nos leve mais próximos, uns dos outros e de nós mesmos.
Nos vemos ano que vem.



terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Avião rumo à Panamá City


E nem acredito que estou aqui, nas nuvens, sozinha, indo para NY, que vou conhecer com a pessoa mais importante no mundo para mim neste momento.
ANDRÉ.
Meu filho querido, que tem mais idade hoje do que às vezes me sinto.
Pois parece que basta colocar sobre a pele, uns jeans desbotados, umas botinas e uma camiseta da Minie, e se pode ter a idade que se queira.
E o filho que se teve, quando vinte e muito poucos anos, é a parte irmã de tua alma, que caminha independente e segue já uma outra luz.
Mas vibra na mesma dissonância.
E reverbera as mesmas cores.
Com "quês" de diferente intensidade.

E do avião, Panamá City parecia estar numa outra dimensão do tempo.
Seus gigantescos arranha-céus a beira d'água, flutuando na janela de nuvens entre o mar, espelho plácido pacífico, e as montanhas, doce folguedo a verdejar moldura e cuidado.
Viajar é irreal.
Preciso como navegar.
Necessário como viver.

Vista aérea de Panamá City de:www.costaricapages.com/panama/blog

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Diacronia

Era 13 de junho de 2008.
Finalzinho de tarde, o sol já se abaixando por detrás dos prédios, mal tocava os chorões da beira do canal.
Sua luz dourada afagava de leve os ramos pêndulos.
Não fazia exatamente frio, como já há muitos anos.
Estávamos indo comprar os últimos ascebípes para a festinha do meu aniversário.
Falávamos. Como sempre que estamos juntas. Falávamos.
Como é bom fazer isso com algumas pessoas.
"Interlocutores válidos", não são todos. São raros. São poucos.
Sandra É.
De repente a cena. Irrompeu autoritária.
Silenciamos.
Quase rezamos.
Quase choramos.
Ficou em nossa retina.
Não sabemos a história. Não sabemos aonde ia.
A moça cega, levando um bebê ao colo, embrulhado em uma manta quase fina, caminhava pelo gramado à beira do canal do rio, que passa lá em baixo. Ladeando os chorões que balançavam seus ramos a impulsiná-la.
Não sei como, firme e decidida.
À beira do rio e à beira da estrada.
Os carros impacientes à luz do fim do dia.
Indiferentes as vidas que margeiam. Com seu alvoroço de sons e pressa.
Quase paramos.
Tudo.
Passamos.
Com o nó amarrado na garganta.
Com orgulho por ela.
Com pena de nós.
Foi um forte presente. Quase imperceptível.
Como um sôco.
Como uma porta batendo.
Como um raio isolado numa tempestade de verão.

Hoje, com o dia ainda cinza. Antes do sol se decidir se ficar ou partir.
Para me acordar eu li

LUZ

Nunca foi casada,
Nem vai de mãos dadas.

Não conheceu beijo,
Nem talvez desejo.

Do ato só lembra
O sopro na orelha...

Ao filho carrega,
Aquecido, a cega...

Do livro: Recordações de andar exausto
de
Mayrant Gallo


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Minha amiga Elizete

Já trabalhamos juntas.
Corremos juntas.
Viajamos juntas.
Ela foi um presente que ganhei quando fui trabalhar em um lugar equivocado.
Hoje ela reclama que quase não nos vimos este ano. E pouco estivemos juntas.
Ela tem razão.
O tempo passou muito rápido???
Ou fomos nós que corremos pouco???
Whatever!!!
Hoje ela me mandou um presente, que agora coloco aqui com o texto que veio junto.
Obrigada minha amiga.
Estou dividindo com todos os outros meus amigos.
E estou inaugurando com isso um novo jeito de blogar.
Por isso agradeço a ti, o presente. e a Bípede, a idéia.
Espero que ela veja e também goste. Tanto quanto eu.
Espero que todos que me visitam, gostem.


Esse vídeo foi achado jogado nos escombros da antiga gravadora dos Beatles (Abbey Road Studios) e mostra uma sessão de gravação de GET BACK.
Como key board das gravações, o pianista negro americano Billy Preston ...
Assistindo à gravação - lá pela altura do minuto
02:12 aparece bem rápido um tal de Mick Jagger!


Do excelente "A vida às Cores"

Especilmente para Bípede Falante, um cartão de natal que gostaria de ter sido eu a criá-lo, mas tomei a liberdade de emprestá-lo à outra maravilhosa bípede.


Para todos os bípedes do sul que estão vivendo em tempo real, extraordinário e terrível essa vida do avesso e desmoronada.

Também para tantos outros bípedes amigos, que bem sabem do que se está a falar.

Apesar de tudo, ou por isso mesmo, Feliz Natal.



black & white / preto e branco



o avesso da vida é vida também. tal como é vida a vida que se desmorona. tal como é vida esperar que a poeira da vida assente. viver a vida é vivê-la desmedida e não temer a raiva, não temer o desengano.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Vivi



Do outro lado da fronteira, passada a Catarata, a vida que fervilha é de uma outra qualidade e espécie.
Dói. Se espreme na multidão. Se espreme para viçar no meio da balbúrdia e do caos.
Os pássaros trinam os apitos dos guardas, as buzinas são outras aves nervosas em arritmias espasmódicas.
Os homens, esses grasnam suas mercadorias baratas num preço de esmola.
As lojas são tristes. Sujas as ruas, que se precipitam em outras sem certeza de seus caminhos.
As mercadorias empilhadas por cima das pessoas, dos balcões, das vitrines, vão sendo arrastadas em grandes sacolas.
Em ombros, bicicletas, carros e ônibus, vão se escoando lentamente na interminável fila.
O ar é denso, quente, não serve para respirar.
É parado, não serve para trafegar.
Os pulmões entorpecem. O coração quer gritar. Quer parar. Corre então para fugir à tortura asfixiante do universo falso das lojas.
Não há já, escapatória.
O rio passa indiferente.
Sua queda é inexorável e bela. Seu troar aqui não é ouvido.
As tristes canções dos bizarros seres que aqui se transportam, transformam o local numa dicotomia que agoniza.
Do outro lado da ponte, o lado de cá, o nosso, as coisas tendem a melhorar.
Para serem vistas.
Paga-se mais caro o ar puro que ali se tenta, sem pudor, usurpar aos pássaros.
As aves não são de arribação, as pessoas são.
"Quero chorar, não tenho lágrimas". O sol sequestrou-as devolvendo a beleza às cataratas.
Correr nem é preciso nem muito menos valioso.
Correr é delicioso mergulho no coração do bosque rumo à queda d'água.
Seus olhos, Iguaçu, não me guardam na memória.
O coração estertora ainda a lembrança.
Voltar é a única coisa a fazer.
Três meses depois, nascer e festejar as lágrimas brotadas do arco-íris que emoldurava a queda.
A água segue sempre a sua forma. Initerrupta.
Inunda o ser.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Pessoa

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


No Sem cerimônias, o blog de uma amiga, o post I don't Know, me fez pensar em Pessoa, e em muitas coisas que ele escreveu. A poesia gera poesia na vida, no pensamento. Ler o pensar faz a gente pensar, lembrar, pensar... esse processo é vivo, dinâmico e excitante. Nem sempre nos faz feliz, pode mesmo nos deixar muito, muito angustiados, nos fazer sentir a grandeza ou a infinitude de nossa pequenes. Mas nos joga adiante. Sempre adiante, em busca quem sabe do alento do vazio da ausência do pensamento, esgotado em si mesmo, onde tudo forma um vasto nada.


Empréstimo

Antes de dormir, quem sabe, finalmente, um último olhar para esse novo mundo e meus novos amigos.
Um dos meus cantinhos preferidos: O Caderno de Saramago.
Espero que ele não se importe. Teria pedido se fosse possível, e eu soubesse como.
Aliás, tenho uma amiga que tem convite e vai ao evento de lançamento do novo livro dele - A viagem do Elefante - em Sampa. Que inveja! Eu adoraria.

Ontem ele falou da tristeza que se abate na minha querida terra natal: Santa Catarina. Itajaí, Blumenau, Balneário Camboriú, amigos, parentes, conhecidos, queridos desconhecidos, todos abraçados, assustados, num grande cataclisma. A natureza seguindo seu curso a despeito de todas as intervensões do homem. Ou mesmo a propósito delas.

Hoje ele fala de nós, dos blogs. Sei que sei o que ele diz. E me senti parte de um grande mundo.

A página infinita da Internet

By José Saramago

Acabamos de sair da conferência de imprensa de São Paulo, a colectiva, como dizem aqui.
Surpreende-me que vários jornalistas me tenham perguntado pela minha condição de blogueiro quando tínhamos atrás o anúncio de uma exposição estupenda, a que é organizada pela Fundação César Manrique no Instituto Tomie Ohtake, com os máximos representantes e patrocinadores, e com a apresentação de um novo livro à vista. Mas a muitos jornalistas interessava-lhes a minha decisão de escrever na “página infinita da Internet”. Será que, aqui, melhor dito, nos assemelhamos todos? É isto o mais parecido com o poder dos cidadãos? Somos mais companheiros quando escrevemos na Internet? Não tenho respostas, apenas constato as perguntas. E gosto de estar escrevendo aqui agora. Não sei se é mais democrático, sei que me sinto igual ao jovem de cabelo alvoroçado e óculos de aro, que com os seus vinte e poucos anos, me questionava. Seguramente para um blog.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Vida Parida


Meus olhos ardem do pouco dormir.
A vida não para.
A vida urge e atropela.
É bela.
É dura.
É doída.
É cumprida no seu viver.
Meus olhos se querem fechar.
Dormir, descansar.
Por alguns momentos nem sentir, só sonhar.
A água da vida inunda a cidade e traz a morte.
A água da vida escorre sua origem trazendo a vida.
As vezes as barreiras devem ser cortadas, desviadas.
A vida substitui a vida e "o tempo não para".
Viver não é mais que o choro do nascer.
Viver não é menos que a dor de a cada instante morrer.
Morrer é sublime.
Viver é frenético e sublime.
Viver é querer e se reinventar.
Não dormir mas acordar.
Viver é cantar. A dor de vir. A dor de voltar. A dor de passar.
Dormir é se reinventar, para hoje, acordar.

Um Camões emprestado

Tirado dos comentários no blog Palavras Soltas
presente para ela de Eugênio .

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades

Diferentes em tudo na esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança;
E do bem, se algum houver, as saudades

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía"

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

SOPHIA


Sophia, a gata que herdei de meu filho, minha companheira há 10 anos, morreu dia 4/10.

Quando viajei, logo após o feriado de 7 de setembro, levei-a para ficar com nosso amigo Humberto, que já a havia hospedado e abrigado ano passado quando também parti por um período de 20 dias.
Ela foi, com sua aparência tranquila, seu olhar inquisidor e seu coraçãozinho batendo forte e rápido, como sempre faz quando a tiro de casa.
Durante minha estada fora, teve uma nova crise pulmonar, de um problema já conhecido de Ferdinando (seu anjo da guarda disfarçado de veterinário), que foi prontamente tratada e melhorou sem renitências maiores.
No dia seguinte à minha chegada, recebi um e-mail de Humberto:

humberto - O FELIX





QUANDO ESSA MISSIVA CHEGAR EM SUAS MAOS.... ESTAREMOS LONGE.


SOFIA AGORA É MINHA E NAO MAIS SAIRÁ MAIS DAQUI.

NEM PROCURE AJUDA.!!!!! MUDAMOS.........TODOS OS GATOS DA AGUA VERDE ESTÃO SABENDO... INCLUSIVE OS CÃES AMIGOS !?

VOCE NAO É MAIS BENVINDA NESTAS PARAGENS.

FOMOS!

P.S. ELA ESTÁ BEM, FELIZ, CHEIROSA E TUDO VIU! MANDA LEMBRANÇAS E VALEU POR TUDO.


Achei-o divertido e entrei prontamente no jogo respondendo no mesmo tom:

QUERIDO FELIX....

O SE PREOCUPE, NÃO SEREI EU A INTERVIR EM VOSSO CASO DE AMOR.
POR QUEM ÉS MEU AMIGO!?!?

HÁ MUITO QUE SEI DO CORAÇÃO DOS SERES SOLITÁRIOS E QUANTO ELES GOSTAM DE SE ENCONTRAR.
TOMEM SEU TEMPO.
DEVO AVISÁ-LO NO ENTANTO, QUE SOPHIA, ESPECIALMENTE , É UMA ALMA LIVRE QUE SE DEIXA FLANAR AO DOCE BALANÇO DOS BRAÇOS DE DOCES GATOS MAS PERMANECE SEMPRE FIEL A SUA ESSENCIA FEMININA.
QUANDO FOR O TEMPO, SEGUIRÁ SEU CAMINHO.

ENQUANTO ISSO, MEUS VOTOS SÃO DE SUBLIME GOZO DE VOSSA FELICIDADE.
E, SE APARECER POR AÍ, SERÁ COMPLETAMENTE NA PAZ, COM GATOS E CACHORROS, APENAS PARA CORDIAL VISITA A DESFRUTAR DE VOSSO LAR FELIZ.

NOTO AINDA QUE ESTAS PARAGENS DE CÁ, ESTÃO E ESTARÃO SEMPRE ABERTAS. E TODOS OS GATOS SERÃO BEM VINDOS.

O! SIGAM SEU CAMINHO, SEJAM FELIZES SEMPRE.
E ATÉ NOSSOS CAMINHOS NOVAMENTE SE ENCONTRAREM.
GRANDES BEIJOS

CARPE DIEM.

No dia seguinte ao final da tarde Humberto me ligou preocupado que Sophia não estava bem. Tinha vomitado o que comera e não estava comendo mais, limitando-se a ficar quietinha enroscada num canto parecendo triste e fraca.
Brinquei, dizendo que era tudo resultado do choque em saber-se sequestrada em sua saudade.
Ele revidou dizendo que era bruxaria minha e que então a traria no dia seguinte para casa.
O sábado foi de chuva quase ininterrupta e quando cheguei em casa, voltando com as botas lavadas de uma rápida saída aos bancos, lá estavam, os dois a minha espera.
Ela estava no chão xadrez da minha cozinha deitadinha em cima de suas patas, como uma Esfinge com a cabeça abandonada a devaneios e não questionamentos mortais.
Quando me viu e a tomei nos braços, seu coração disparou e me olhou demoradamente com seu olhar tranquilo parecendo dizer-me: que bom te ver e estar em casa. Foi um momento aconchegante embalado pelo ritmo da chuva lá fora.
Servi-lhe comida e água no seu cantinho costumeiro que, talvez para me agradar, ela fingiu experimentar.
Era já passada a hora de nós também comermos e saímos para almoçar. Humberto ainda estava meio preocupado com a aparente fragilidade dela, mas lembrando-me de outras vezes em que me separei e voltei e da reação de minha amiga, acalmei-o dizendo que ela ficaria bem.
Foi o que realmente acreditei, apaziguada que estava pela doçura do nosso reencontro.
Conhecia aquela sensação, aquela calma recepção, aquele continente imenso de capacidade de solidão que sempre invejava e questionava nela o ensinamento.
Como diz Carpinejar, "a solidão deixa a gente inteiro".
Sophia conhecia isso profundamente e lhe rogava ensinar-me.
Em todos esses anos, desde que veio cá para casa, em primeiro lugar e principalmente para fazer companhia e pertencer a André, meu filho, se estabeleceu entre ela e eu, uma cumplicidade, um acordo, um contrato, um sei lá o quê, de entendimento e aprendizagem. Era mútuo. Conversávamos. Nos entendíamos. Nos fazíamos companhia.
Isso era o mais belo. Fazíamo-nos companhia mesmo a distância. E ela sabia como ninguém, ou como só os gatos sabem, ficar só e inteira. Esquentando a casa. Amaciando a mesa. Aconchegando o sofá.
Acho, que, depois de todos esses anos, nessa convivência caseira, quase clausura, de gato de apartamento, havia ultrapassado sua condição felina.
Tinha hábitos de gato, com manias de gente, e obséquios de cão.
Vinha me receber à porta a qualquer hora que chegasse. Salvo quando por qualquer razão, estivesse de mal comigo.
Namorava o cão da vizinha diagonal. Gostava dos cães. Perto deste, estacava soberba, deixando-o cheirá-la e examiná-la maliciosamente.
Quando ele não estava, alisava-se lânguida em frente à sua porta, sempre que tinha oportunidade de fresta aberta.
Outros cães, olhava curiosa. Não importando seu tamanho. Parecia procurar entendê-los e ao mesmo tempo confessar-se incapaz.
Outros gatos observava desconfiada. Se invadissem o espaço de dentro de minha porta enfrentava-0s agressiva e desafiadora.
Na clínica veterinária ou na chácara, concedia que transitassem a sua volta, mas sem muita intimidade.
Já não era só uma gata.
Depois do almoço, naquele sábado chuvoso, resolvi ir ao cinema e de lá voltei completamente mexida com a força do filme. O Ensaio Sobre a Cegueira.
Abri a porta, acendi a lanterna do hall e estranhei a falta da recepção de minha amiga.
Entrei chamando-a sem receber resposta, já imaginando se havia esquecido a porta de meu quarto aberta para encontrá-la submersa em minhas cobertas.
Ainda na penumbra do apartamento iluminado pelas luzes externas, divisei-a no chão da cozinha deitada esticadinha como costumava em dias de sol.
Ao tocá-la sua rigidez penetrou-me a mão, estarrecedora.
Tinha se despedido de mim definitivamente.
Como se ao espreguiçar-se, tivesse saído de si e esquecido de voltar. Os olhos abertos como a divisar outros campos.
Fiquei perdida. Chorei convulsamente o meu atraso. Chorei o filme. Chorei os olhos abertos dela. Chorei sua despedida doce e calma.
Coloquei-a deitada em sua cesta e assim a enterramos no dia seguinte, debaixo de um tímido sol ainda molhado da chuva do dia anterior.
Seu pelo branquinho e macio aconchegando-a no frescor da terra, onde está agora, rodeada de plantas e pássaros.
A casa ficou com a presença de sua falta.
O silêncio e a solidão agora são meus por inteiro.
Compartilho com sua lembrança a gratidão do que me ensinou.
Quis entender minha dor e escrever algo para guardá-la de outras formas.
Não conseguia no entanto concretizar o que pensava e sentia.
Passei alguns dias em momentos esparsos a olhar suas fotos e a continuar desejando registrar o sentimento, sem ser capaz.
Uns 20 dias depois, ainda sem ter sido apta a organizar meus sentimentos e escrever alguma coisa em forma de despedida à minha amiga querida, passeando pelo blog do poeta Carpinejar, encontrei uma crônica em que falava da morte do gato de seu amigo, acontecida dois dias depois da partida de Sophia.
Chorei novamente emocionada e escrevi a ele pedindo se poderia colocar seu texto aqui, enquanto não conseguia achar as palavras que precisava para dizer o que queria.
De alguma forma e por alguma razão, esta resposta e concedência só me chegou ontem, pela própria pessoa do poeta.
Hoje, de alguma outra forma, quando aqui sentei para postar a sua crônica em homenagem, despedida e acalanto à Sophia, comecei a escrever o que deveria ser apenas um bilhete explicativo da postagem dum texto não meu.
E de meus dedos acabaram-se derramando todas estas palavras e frases.
Pode parecer fútil, piegas e idiota toda essa despedida. Afinal, não estou falando, de uma pessoa.
O mundo urgindo em acontecimentos, a crise, a fome, a presidência dos EUA.... e eu emaranhada em meu novelo de sentimentos em relação a uma gata.
Não tenho explicação.
Tinha a necessidade. O desejo. A lembrança.
Fiz o que precisei e quis.
Com a autorização verbal do poeta, incluo a sua despedida de Oliver. Esta, sublime e bela. Escrita com a verve, a clareza e o talento que eu queria ter.

Obrigada poeta.


Segunda-feira, Outubro 06, 2008

ALMA DA CASA
Para Oliver, Luiz, Simone e Helena


Fabrício Carpinejar



Nunca fui fã de gatos. Era menino de quintal, e os fundos da casa pediam cachorros, para latir e proteger a família. Nenhum menino na escola dizia, é curiosa a evocação, que tinha um gato. Todos declaravam nas redações escolares que tinham um cachorro. Não sei onde os gatos viviam. Eles se multiplicavam nas muradas e antenas. Disparavam atravessando as avenidas, com uma velocidade espantosa, pulavam grades e cercas.

Enterrei seis gatos, apedrejados e enforcados pela maldade dos guris grandes do bairro. Jogados no terreno baldio ao lado da minha residência. Busquei os mortos com carrinho de construção e usei o avental da mãe como máscara de médico. Os guris grandes eram apelidados de girontes, mistura de girafa (pela altura) e mastodonte (pela truculência). Enterrei perto da horta, os cachorros respeitaram o luto e não uivaram. Um gato morto é um anjo sem asas. Mas achava que o gato merecia ser deitado no telhado, já que ele é mais céu do que terra.



Espero ter sido respeitoso com os felinos. Armei uma cruz com a data e o nome do dia. Repousei pedras como braços da chuva.

E compreendi o motivo secreto do gato não aparecer em minha infância. Gato é bichano de adulto, ou de criança superdotada. Há muita solidão nele para se agüentar quando pequeno. Descobri que os pais dos meus amigos cuidavam de gatos, que andavam sorrateiros pelos escritórios, desligando o abajur e vigiando as tomadas pelos cantos.

O gato não é como o cachorro, que lambe, pula, traquina logo no primeiro abraço. O gato estuda geometria. Não depende de nosso gesto para existir. Ele se aproxima devagar, como uma almofada e não mendiga ternuras. Espera o instante exato da amizade para merecer o amor e se vira para facilitar as cócegas. Não mexe o rabo como um ventilador desesperado no verão. O gato é silencioso como um ar-condicionado. Quente, frio. Tem controle remoto. Eu nunca sei de onde vem, pois já estava na sala antes de enxergá-lo. O gato é o antigo morador de qualquer casa. Conhece a planta da água oculta e as ramificações da umidade.

Curioso, mas não indiscreto como o cão. Atento, mas não fofoqueiro. O gato é quando calamos e não estamos tristes.

Recebi telefonema de Luiz Ruffato. Não reconheci sua voz. Vazia, sem rompantes, um tom impessoal de catálogo telefônico.

- O que houve, mano?

Seu gato Oliver estava se despedindo. O rim parou. Havia se recuperado milagrosamente nos últimos dois meses e voltou a sentir a falta de fome e se aninhar na morbidez das cortinas.

Quando conversava com Ruffato e Simone no apartamento deles em Perdizes, Oliver ficava alteado na janela e ouvia a música de fundo de nossos timbres. Um conselheiro sábio, confidente dos muros, que nos indicava a verdade pelos bigodes. Concedeu a pata algumas vezes, com discrição, um cumprimento honesto. Não mais do que isso, para não confiar em demasia nos costumes. Seu pêlo era a barba linda que teria se não convivesse com a lâmina.

A luz seguia Oliver pela casa, como uma palavra favorita. Abria clareiras pelos aposentos. Iluminava a mesa com sua toalha de olhos.

Se o homem é a alma da rua, se o cachorro é a alma do pátio, o gato é a alma da casa. Oliver reembolsou minha solidão. Eu o amo como se eu nunca tivesse existido. Sei agora desaparecer para não morrer.