quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Pessoa

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


No Sem cerimônias, o blog de uma amiga, o post I don't Know, me fez pensar em Pessoa, e em muitas coisas que ele escreveu. A poesia gera poesia na vida, no pensamento. Ler o pensar faz a gente pensar, lembrar, pensar... esse processo é vivo, dinâmico e excitante. Nem sempre nos faz feliz, pode mesmo nos deixar muito, muito angustiados, nos fazer sentir a grandeza ou a infinitude de nossa pequenes. Mas nos joga adiante. Sempre adiante, em busca quem sabe do alento do vazio da ausência do pensamento, esgotado em si mesmo, onde tudo forma um vasto nada.


Empréstimo

Antes de dormir, quem sabe, finalmente, um último olhar para esse novo mundo e meus novos amigos.
Um dos meus cantinhos preferidos: O Caderno de Saramago.
Espero que ele não se importe. Teria pedido se fosse possível, e eu soubesse como.
Aliás, tenho uma amiga que tem convite e vai ao evento de lançamento do novo livro dele - A viagem do Elefante - em Sampa. Que inveja! Eu adoraria.

Ontem ele falou da tristeza que se abate na minha querida terra natal: Santa Catarina. Itajaí, Blumenau, Balneário Camboriú, amigos, parentes, conhecidos, queridos desconhecidos, todos abraçados, assustados, num grande cataclisma. A natureza seguindo seu curso a despeito de todas as intervensões do homem. Ou mesmo a propósito delas.

Hoje ele fala de nós, dos blogs. Sei que sei o que ele diz. E me senti parte de um grande mundo.

A página infinita da Internet

By José Saramago

Acabamos de sair da conferência de imprensa de São Paulo, a colectiva, como dizem aqui.
Surpreende-me que vários jornalistas me tenham perguntado pela minha condição de blogueiro quando tínhamos atrás o anúncio de uma exposição estupenda, a que é organizada pela Fundação César Manrique no Instituto Tomie Ohtake, com os máximos representantes e patrocinadores, e com a apresentação de um novo livro à vista. Mas a muitos jornalistas interessava-lhes a minha decisão de escrever na “página infinita da Internet”. Será que, aqui, melhor dito, nos assemelhamos todos? É isto o mais parecido com o poder dos cidadãos? Somos mais companheiros quando escrevemos na Internet? Não tenho respostas, apenas constato as perguntas. E gosto de estar escrevendo aqui agora. Não sei se é mais democrático, sei que me sinto igual ao jovem de cabelo alvoroçado e óculos de aro, que com os seus vinte e poucos anos, me questionava. Seguramente para um blog.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Vida Parida


Meus olhos ardem do pouco dormir.
A vida não para.
A vida urge e atropela.
É bela.
É dura.
É doída.
É cumprida no seu viver.
Meus olhos se querem fechar.
Dormir, descansar.
Por alguns momentos nem sentir, só sonhar.
A água da vida inunda a cidade e traz a morte.
A água da vida escorre sua origem trazendo a vida.
As vezes as barreiras devem ser cortadas, desviadas.
A vida substitui a vida e "o tempo não para".
Viver não é mais que o choro do nascer.
Viver não é menos que a dor de a cada instante morrer.
Morrer é sublime.
Viver é frenético e sublime.
Viver é querer e se reinventar.
Não dormir mas acordar.
Viver é cantar. A dor de vir. A dor de voltar. A dor de passar.
Dormir é se reinventar, para hoje, acordar.

Um Camões emprestado

Tirado dos comentários no blog Palavras Soltas
presente para ela de Eugênio .

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades

Diferentes em tudo na esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança;
E do bem, se algum houver, as saudades

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía"

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

SOPHIA


Sophia, a gata que herdei de meu filho, minha companheira há 10 anos, morreu dia 4/10.

Quando viajei, logo após o feriado de 7 de setembro, levei-a para ficar com nosso amigo Humberto, que já a havia hospedado e abrigado ano passado quando também parti por um período de 20 dias.
Ela foi, com sua aparência tranquila, seu olhar inquisidor e seu coraçãozinho batendo forte e rápido, como sempre faz quando a tiro de casa.
Durante minha estada fora, teve uma nova crise pulmonar, de um problema já conhecido de Ferdinando (seu anjo da guarda disfarçado de veterinário), que foi prontamente tratada e melhorou sem renitências maiores.
No dia seguinte à minha chegada, recebi um e-mail de Humberto:

humberto - O FELIX





QUANDO ESSA MISSIVA CHEGAR EM SUAS MAOS.... ESTAREMOS LONGE.


SOFIA AGORA É MINHA E NAO MAIS SAIRÁ MAIS DAQUI.

NEM PROCURE AJUDA.!!!!! MUDAMOS.........TODOS OS GATOS DA AGUA VERDE ESTÃO SABENDO... INCLUSIVE OS CÃES AMIGOS !?

VOCE NAO É MAIS BENVINDA NESTAS PARAGENS.

FOMOS!

P.S. ELA ESTÁ BEM, FELIZ, CHEIROSA E TUDO VIU! MANDA LEMBRANÇAS E VALEU POR TUDO.


Achei-o divertido e entrei prontamente no jogo respondendo no mesmo tom:

QUERIDO FELIX....

O SE PREOCUPE, NÃO SEREI EU A INTERVIR EM VOSSO CASO DE AMOR.
POR QUEM ÉS MEU AMIGO!?!?

HÁ MUITO QUE SEI DO CORAÇÃO DOS SERES SOLITÁRIOS E QUANTO ELES GOSTAM DE SE ENCONTRAR.
TOMEM SEU TEMPO.
DEVO AVISÁ-LO NO ENTANTO, QUE SOPHIA, ESPECIALMENTE , É UMA ALMA LIVRE QUE SE DEIXA FLANAR AO DOCE BALANÇO DOS BRAÇOS DE DOCES GATOS MAS PERMANECE SEMPRE FIEL A SUA ESSENCIA FEMININA.
QUANDO FOR O TEMPO, SEGUIRÁ SEU CAMINHO.

ENQUANTO ISSO, MEUS VOTOS SÃO DE SUBLIME GOZO DE VOSSA FELICIDADE.
E, SE APARECER POR AÍ, SERÁ COMPLETAMENTE NA PAZ, COM GATOS E CACHORROS, APENAS PARA CORDIAL VISITA A DESFRUTAR DE VOSSO LAR FELIZ.

NOTO AINDA QUE ESTAS PARAGENS DE CÁ, ESTÃO E ESTARÃO SEMPRE ABERTAS. E TODOS OS GATOS SERÃO BEM VINDOS.

O! SIGAM SEU CAMINHO, SEJAM FELIZES SEMPRE.
E ATÉ NOSSOS CAMINHOS NOVAMENTE SE ENCONTRAREM.
GRANDES BEIJOS

CARPE DIEM.

No dia seguinte ao final da tarde Humberto me ligou preocupado que Sophia não estava bem. Tinha vomitado o que comera e não estava comendo mais, limitando-se a ficar quietinha enroscada num canto parecendo triste e fraca.
Brinquei, dizendo que era tudo resultado do choque em saber-se sequestrada em sua saudade.
Ele revidou dizendo que era bruxaria minha e que então a traria no dia seguinte para casa.
O sábado foi de chuva quase ininterrupta e quando cheguei em casa, voltando com as botas lavadas de uma rápida saída aos bancos, lá estavam, os dois a minha espera.
Ela estava no chão xadrez da minha cozinha deitadinha em cima de suas patas, como uma Esfinge com a cabeça abandonada a devaneios e não questionamentos mortais.
Quando me viu e a tomei nos braços, seu coração disparou e me olhou demoradamente com seu olhar tranquilo parecendo dizer-me: que bom te ver e estar em casa. Foi um momento aconchegante embalado pelo ritmo da chuva lá fora.
Servi-lhe comida e água no seu cantinho costumeiro que, talvez para me agradar, ela fingiu experimentar.
Era já passada a hora de nós também comermos e saímos para almoçar. Humberto ainda estava meio preocupado com a aparente fragilidade dela, mas lembrando-me de outras vezes em que me separei e voltei e da reação de minha amiga, acalmei-o dizendo que ela ficaria bem.
Foi o que realmente acreditei, apaziguada que estava pela doçura do nosso reencontro.
Conhecia aquela sensação, aquela calma recepção, aquele continente imenso de capacidade de solidão que sempre invejava e questionava nela o ensinamento.
Como diz Carpinejar, "a solidão deixa a gente inteiro".
Sophia conhecia isso profundamente e lhe rogava ensinar-me.
Em todos esses anos, desde que veio cá para casa, em primeiro lugar e principalmente para fazer companhia e pertencer a André, meu filho, se estabeleceu entre ela e eu, uma cumplicidade, um acordo, um contrato, um sei lá o quê, de entendimento e aprendizagem. Era mútuo. Conversávamos. Nos entendíamos. Nos fazíamos companhia.
Isso era o mais belo. Fazíamo-nos companhia mesmo a distância. E ela sabia como ninguém, ou como só os gatos sabem, ficar só e inteira. Esquentando a casa. Amaciando a mesa. Aconchegando o sofá.
Acho, que, depois de todos esses anos, nessa convivência caseira, quase clausura, de gato de apartamento, havia ultrapassado sua condição felina.
Tinha hábitos de gato, com manias de gente, e obséquios de cão.
Vinha me receber à porta a qualquer hora que chegasse. Salvo quando por qualquer razão, estivesse de mal comigo.
Namorava o cão da vizinha diagonal. Gostava dos cães. Perto deste, estacava soberba, deixando-o cheirá-la e examiná-la maliciosamente.
Quando ele não estava, alisava-se lânguida em frente à sua porta, sempre que tinha oportunidade de fresta aberta.
Outros cães, olhava curiosa. Não importando seu tamanho. Parecia procurar entendê-los e ao mesmo tempo confessar-se incapaz.
Outros gatos observava desconfiada. Se invadissem o espaço de dentro de minha porta enfrentava-0s agressiva e desafiadora.
Na clínica veterinária ou na chácara, concedia que transitassem a sua volta, mas sem muita intimidade.
Já não era só uma gata.
Depois do almoço, naquele sábado chuvoso, resolvi ir ao cinema e de lá voltei completamente mexida com a força do filme. O Ensaio Sobre a Cegueira.
Abri a porta, acendi a lanterna do hall e estranhei a falta da recepção de minha amiga.
Entrei chamando-a sem receber resposta, já imaginando se havia esquecido a porta de meu quarto aberta para encontrá-la submersa em minhas cobertas.
Ainda na penumbra do apartamento iluminado pelas luzes externas, divisei-a no chão da cozinha deitada esticadinha como costumava em dias de sol.
Ao tocá-la sua rigidez penetrou-me a mão, estarrecedora.
Tinha se despedido de mim definitivamente.
Como se ao espreguiçar-se, tivesse saído de si e esquecido de voltar. Os olhos abertos como a divisar outros campos.
Fiquei perdida. Chorei convulsamente o meu atraso. Chorei o filme. Chorei os olhos abertos dela. Chorei sua despedida doce e calma.
Coloquei-a deitada em sua cesta e assim a enterramos no dia seguinte, debaixo de um tímido sol ainda molhado da chuva do dia anterior.
Seu pelo branquinho e macio aconchegando-a no frescor da terra, onde está agora, rodeada de plantas e pássaros.
A casa ficou com a presença de sua falta.
O silêncio e a solidão agora são meus por inteiro.
Compartilho com sua lembrança a gratidão do que me ensinou.
Quis entender minha dor e escrever algo para guardá-la de outras formas.
Não conseguia no entanto concretizar o que pensava e sentia.
Passei alguns dias em momentos esparsos a olhar suas fotos e a continuar desejando registrar o sentimento, sem ser capaz.
Uns 20 dias depois, ainda sem ter sido apta a organizar meus sentimentos e escrever alguma coisa em forma de despedida à minha amiga querida, passeando pelo blog do poeta Carpinejar, encontrei uma crônica em que falava da morte do gato de seu amigo, acontecida dois dias depois da partida de Sophia.
Chorei novamente emocionada e escrevi a ele pedindo se poderia colocar seu texto aqui, enquanto não conseguia achar as palavras que precisava para dizer o que queria.
De alguma forma e por alguma razão, esta resposta e concedência só me chegou ontem, pela própria pessoa do poeta.
Hoje, de alguma outra forma, quando aqui sentei para postar a sua crônica em homenagem, despedida e acalanto à Sophia, comecei a escrever o que deveria ser apenas um bilhete explicativo da postagem dum texto não meu.
E de meus dedos acabaram-se derramando todas estas palavras e frases.
Pode parecer fútil, piegas e idiota toda essa despedida. Afinal, não estou falando, de uma pessoa.
O mundo urgindo em acontecimentos, a crise, a fome, a presidência dos EUA.... e eu emaranhada em meu novelo de sentimentos em relação a uma gata.
Não tenho explicação.
Tinha a necessidade. O desejo. A lembrança.
Fiz o que precisei e quis.
Com a autorização verbal do poeta, incluo a sua despedida de Oliver. Esta, sublime e bela. Escrita com a verve, a clareza e o talento que eu queria ter.

Obrigada poeta.


Segunda-feira, Outubro 06, 2008

ALMA DA CASA
Para Oliver, Luiz, Simone e Helena


Fabrício Carpinejar



Nunca fui fã de gatos. Era menino de quintal, e os fundos da casa pediam cachorros, para latir e proteger a família. Nenhum menino na escola dizia, é curiosa a evocação, que tinha um gato. Todos declaravam nas redações escolares que tinham um cachorro. Não sei onde os gatos viviam. Eles se multiplicavam nas muradas e antenas. Disparavam atravessando as avenidas, com uma velocidade espantosa, pulavam grades e cercas.

Enterrei seis gatos, apedrejados e enforcados pela maldade dos guris grandes do bairro. Jogados no terreno baldio ao lado da minha residência. Busquei os mortos com carrinho de construção e usei o avental da mãe como máscara de médico. Os guris grandes eram apelidados de girontes, mistura de girafa (pela altura) e mastodonte (pela truculência). Enterrei perto da horta, os cachorros respeitaram o luto e não uivaram. Um gato morto é um anjo sem asas. Mas achava que o gato merecia ser deitado no telhado, já que ele é mais céu do que terra.



Espero ter sido respeitoso com os felinos. Armei uma cruz com a data e o nome do dia. Repousei pedras como braços da chuva.

E compreendi o motivo secreto do gato não aparecer em minha infância. Gato é bichano de adulto, ou de criança superdotada. Há muita solidão nele para se agüentar quando pequeno. Descobri que os pais dos meus amigos cuidavam de gatos, que andavam sorrateiros pelos escritórios, desligando o abajur e vigiando as tomadas pelos cantos.

O gato não é como o cachorro, que lambe, pula, traquina logo no primeiro abraço. O gato estuda geometria. Não depende de nosso gesto para existir. Ele se aproxima devagar, como uma almofada e não mendiga ternuras. Espera o instante exato da amizade para merecer o amor e se vira para facilitar as cócegas. Não mexe o rabo como um ventilador desesperado no verão. O gato é silencioso como um ar-condicionado. Quente, frio. Tem controle remoto. Eu nunca sei de onde vem, pois já estava na sala antes de enxergá-lo. O gato é o antigo morador de qualquer casa. Conhece a planta da água oculta e as ramificações da umidade.

Curioso, mas não indiscreto como o cão. Atento, mas não fofoqueiro. O gato é quando calamos e não estamos tristes.

Recebi telefonema de Luiz Ruffato. Não reconheci sua voz. Vazia, sem rompantes, um tom impessoal de catálogo telefônico.

- O que houve, mano?

Seu gato Oliver estava se despedindo. O rim parou. Havia se recuperado milagrosamente nos últimos dois meses e voltou a sentir a falta de fome e se aninhar na morbidez das cortinas.

Quando conversava com Ruffato e Simone no apartamento deles em Perdizes, Oliver ficava alteado na janela e ouvia a música de fundo de nossos timbres. Um conselheiro sábio, confidente dos muros, que nos indicava a verdade pelos bigodes. Concedeu a pata algumas vezes, com discrição, um cumprimento honesto. Não mais do que isso, para não confiar em demasia nos costumes. Seu pêlo era a barba linda que teria se não convivesse com a lâmina.

A luz seguia Oliver pela casa, como uma palavra favorita. Abria clareiras pelos aposentos. Iluminava a mesa com sua toalha de olhos.

Se o homem é a alma da rua, se o cachorro é a alma do pátio, o gato é a alma da casa. Oliver reembolsou minha solidão. Eu o amo como se eu nunca tivesse existido. Sei agora desaparecer para não morrer.




domingo, 10 de agosto de 2008

10 de Agosto Dia dos Pais

Os que me conhecem a mais tempo ou mais, sabem: Dia dos Pais nunca foi meu dia.
De pequena, Dia das Mães, era dia de dar presente que ganhava em concurso de redação da Hermes Macedo.
Ganhava todo ano. Minha mãe era a minha heroína. Minha Joana D'Arc que só foi ser queimada na fogueira de minha rebeldia adolescente.
Dias dos Pais eu sumia. Nem redação fazia. Acabei até na diretoria por insubordinação. Pelas mãos da D. Celeste, a professora da quarta série, severa e irredutível: Tem que escrever! É trabalho, vale nota. Todo mundo tem pai.
Eu não!
Claro que tive. Ateu é aquele que tenta negar e não quer acreditar, nega o que é.
Tive pai.
Pior. Lá em casa ele sempre foi: o pai da Mariane.
"Tu és igual a teu pai" - dizia minha mãe quando me censurava teimosia, egoísmo, rebeldia, insolência.
Mas eu não tinha pai. Ele nunca estava lá. Ele não sabia e não soube ser pai.
Pai foi drama. Orfandade. Defeito para mim.
Muito tempo.
Foi errado. Foi "O Erro"! Da minha mãe.
Foi história de brigas, de surras, de sumiços.
Até de polícia.
Foi jogador. Bígamo. Matador.
Self made men. Auto ditata. Jornalista. Radialista.
Quando fiz 18 anos, no dia do meu aniversário, me deu de presente, no seu programa de música regional, às 6:00h da manhã, a música "Chinininha Linda", tocada a todo volume no corredor de banho do pensionato em que morava. Graças a minha amiga Roselete, que sabia antecipadamente do evento comemorativo. Aproveitou que entrei no box de banho e reuniu todas as outras para presenciar minha saída sem roupa, e sem jeito. Vermelha do vapor quente do banho no ar gelado do inverno de Florianópolis, e da vergonha, embaraço de ser o alvo de tal homenagem. Brega.Caipira.
Nessa época, cheia da minha senhoridade de estudante de medicina do primeiro ano, e nos anos seguintes, o encontrava esporadicamente.
Ia almoçar em sua casa ou no restaurante de seu cotidiano. Ele me contava histórias da sua vida, de homem, de jogador, de aventureiro.
Contava "causos".
As vezes conseguia arrastá-lo para a Marrocana, a boutique mais "in" da cidade, onde lhe extorquia uma bata indiana ou uma calça da Mc Queen o jeans mais incrível e caro que, para mim, existia.
Conhecia seus amigos de jogo e de rádio.
Gerava infindáveis e até doentios ciúmes em Lena, minha meia irmã, filha de seu primeiro casamento, que nessa altura vivia com ele, para mim, suspeitamente.
Quando fiz 15 anos, e ganhei uma festa enorme na casa de minha avó, da qual tenho, hoje ainda, um album cheio de fotos dos amigos daquele tempo: a turma de 76, fiquei até o último momento, esperando que ele se mostrasse. Aparecendo magicamente, tranzendo-me um lindo presente, fazendo-me uma surpresa.
Maior que a que tinha tido meses antes ao descobri-lo, depois de uma busca detetivesca, vivendo em Porto Alegre, editando uma revista para a Sociedade Gaúcha de Engenharia e pai de dois irmãos mais velhos do que eu, de existência até então, completamente insuspeita.
Mas nada. A festa transcorreu divertida, com muito doce, muito Cuba, muita dança de rosto colado, de luz negra, de várias gerações comungando um sentimento de mundo de pantalonas, e ainda um certo clima de "o sonho não acabou". "Esse é um país que vai pra frente...."
Muitos mais pais tive naquele e em outros dias da minha vida.
Tio Luciano, o autor das fotos. Tio Otto numa delas dançando com a Tia Aparecida.
Meu pai, foi sempre meu lado esquerdo. Meu lado errado. Meu lado incerto.
Mas pensando bem, também meu lado cigano, meu lado livre, rebelde.
Fisicamente, sua passagem foi meteórica em minha vida. Era uma estrela totalmente cadente.
Para ele exprimia desejos, que sabia, jamais se realizariam.
Me encantava a luz dos fogos de suas aparições que invariavelmente deixavam chamuscas em minhas vestes, em minha alma, em minha mãe, em meus irmãos.
De um jeito ou de outro, vivemos todos sempre esperando que um dia ele aparecesse para assumir o cargo no qual tinha sido investido, mas que nunca lhe serviu, nunca lhe vestiu. Não tinha as suas medidas. Não lhe cabia.
Não foi capaz de representar, nos moldes ditados, um papel que muito pouco ensaiou ou assistiu.
Despiu-se do papel de filho antes de poder sê-lo. Teve ele também um pai itinerante. Tropeiro. Viajante.
Viveu depois o que aprendeu: Partir. Viajar. Aventurar-se.
Caiu no mundo e não nas suas regras.
Vivia quebrando e invadindo ou evadendo-se de suas fronteiras.
O pai que tive, que me sobrou deste, foi criado em minhas fantasias de bem e de mal.
Foi o que fugiu do retrato falado pela mágoa da minha mãe.
Como ele do seu, fui filha da sua ausência. Ela me constituiu.
Meu ateísmo é de pai. Seu nome me está gravado em letras vazias. A função que as preencheu foi dos empréstimos que fiz. Do meu avô, dos meus tios.
Dos remendos fiz o pai que quis. E desbravei o mundo e a vida assim.
Fui meu pai em mim.
Era livre das proibições de fora.
Elas vinham de dentro. Da interdição que eu inventava.
Podia inventar um pai a cada dia. Uma história diferente cada vez. Todos os motivos para a sua ausência.
Todos os enredos que quisesse.
Depois, sonhei todas as vinganças. Todos os perdões. Todas as psicanálises.
Fui Electra e Édipo.
Fui Cassandra e até Clitemnestra.
Passeei toda a mitologia, todo o reino das fadas e das bruxas. Todos os contos.Os quatro cantos do meu mundo.
Fiz terapia.
Não fui no seu enterro.
Da última vez que o vi, sentado no sofá da sala do meu apartamento, tinha a face com a pletora de sempre. Os cabelos já não mais tão impecavelmente englostorados. A roupa um pouco puída pelo longo tempo de uso. Um copo de whisky na mão a despeito de sua insuficiência cardíaca galopante, e me disse:
_ Pois é. Eu vivi. Certo ou errado. Eu vivi.
Não me pediu desculpas. Não se arrependeu de nada.
Foi a última vez que nos falamos. Levei-o depois embora e o deixei em seu hotel.
Eu acho. Não me lembro bem.
Hoje, não sinto mais a sua falta. Foi a sua falta que foi meu pai.
Ela me ensinou uma porção de coisas.
Ela, procurei nos homens que conheci, por muito tempo.
No pai de meu filho por exemplo.
Ela me aprendeu.
Hoje, comprei chocolates com licor e cereja. Comemorei o Dia dos Pais.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Convite



Começou ano passado, quando conheci Juliana,
Me contou que escrevia, bordava e cozinhava
E que tinha um Blog.
Visitei e gostei. Lembrei do que há muito começava
Sem coragem de andar.
Resolvi experimentar.
Comecei aqui a postar, coisas que gostava.
Comecei a contar às pessoas, que acretidava,
pudessem também gostar.
Uma amiga animada, paciente, dedicada,
me mandou um endereço.
Arrisquei, ousei e me mostrei.
O primeiro resultado, em papel impresso, registrado
Na forma mais querida e almejada.
Um livro. Com meu nome nele inscrito e um pouco da minha alma gavinha
Compartilhada.
Feliz no conjunto. Muito bem acompanhada.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Conto do Negócio

Tudo dera absolutamente certo. Sua vida começara da maneira certa e tudo fora caminhando como esperado.
Não nascera em berço de ouro, nada disso, mas no lugar certo, na família certa, na hora certa.
Seus pais eram os que tinham dado mais certo nas suas respectivas famílias. Ambos vindos daquelas típicas famílias de classe média, com 2 irmãos mais novos. Tinham escolhido a medicina e eram felizes no que faziam. Só um erro. Não tinham conseguido se acertar juntos. Talvez por serem, cada um à sua maneira, inteligentes e voluntariosos demais. Haviam mergulhado separadamente em seus trabalhos, suas conquistas. Competiam. Não conviviam.
Até isso, de certa forma, tinha sido bom para ele. Competiam em tudo. Em lhe dar os melhores presentes, a melhor educação, o melhor incentivo, o melhor conselho…
Ele fora aproveitando o melhor de cada lado. Vendo os dois submergirem em seus trabalhos, decidiu que a medicina não lhe servia. Ele queria ter uma família que se reunisse às refeições em volta da mesa, conversando animada e degustando a vida.
A mãe cozinhava bem. Tradição de família. As avós faziam delícias dignas dos melhores restaurantes. Ele adorava sapear pela cozinha, sentindo os aromas, adivinhando os sabores, provando o paladar.
A mãe lhe dizia: escolha uma coisa que gostes de fazer. Trabalhe no que gosta e nunca vais trabalhar na vida.
Sua mente ágil não teve problemas em organizar tudo. Divertia-se tanto nos cursos de culinária como na faculdade de administração, onde a mágica dos números o encantava e tudo encaixava certinho.
Aos 21, com o diploma debaixo do braço, facilidade para as línguas e uma vontade de ganhar o mundo maior que o próprio, embarcou para a Europa. A Itália era a mãe de seus sabores, a França a sua roupagem, os países nórdicos sua resistência, os orientais sua extravagância, a África sua doçura e exotismo. As comidas, os costumes, os perfumes, as pessoas, tudo o fascinava e criava em seu espírito inspirações de sabores e combinações inusitadas. Pratos diferentes se materializavam em suas mãos e deliciavam quem os provava. Foi premiado pelo mundo todo.
Voltou e abriu seu pequeno restaurante. Ali, seus amigos, família, ilustres desconhecidos se reuniam sempre às refeições e conversavam, riam, bebiam e comiam.
O lugar estava sempre cheio, sua forma animada de atender, cozinhar e servir atraía cada vez mais clientes, que sempre saíam satisfeitos e voltavam.
Ela apareceu como representante de vinhos. Tornou-se freguesa. Almoçava todos os dias, jantava quase sempre. Conversava e contava estórias deliciosas.
Começou a fazer a diferença, já não era mais capaz de ficar com a sua ausência.
Um dia, após um jantar em que ela parecia, mais que nunca, não ter nenhuma pressa em tomar seu caminho, ele abriu um vinho, fechou as portas, apagou as luzes deixando somente as velas, sentou-se à sua frente, e num sorriso lhe disse, sincronizando com a música:
_ Não quero mais esse negócio de você longe de mim.
E certamente, a estória continuou…

San Valentino

Eram umas 7 da noite do dia 11 de junho. Véspera do dia dos namorados, antevéspera do seu aniversário, saía para levar a mãe na casa da tia e o telefone tocou: – Oi, minha amiga!!?!?? Preciso de um favor seu!?!?!?!
Precisava que fosse intérprete para um diretor italiano que, estava na cidade para dirigir uma ópera, e o levasse assistir a um coro de crianças que faria parte do espetáculo
Ela foi. Era sábado e, fora ficar com a mãe e a tia, duas velhinhas simpáticas e faladeiras, não tinha nenhum outro programa. A amiga dissera tratar-se de um homem muito charmoso. Ele era alto, aparentava uns 50 anos ou mais, cabelo grisalho meio comprido, com profundas entradas e uma espécie de franjinha, olhar um pouco cansado, mas curioso.
Sorriu simpático e parecia divertido com a experiência. Assistiu estoicamente toda a apresentação dos inúmeros corais e pretensos artistas infantis. Saiu ao final para fumar.
Começaram a conversar na rua, em frente ao teatro, e o assunto varou a noite. Música popular brasileira, italiana, poesia, teatro, rock progressivo italiano, Vinicius, Tom, Caetano, Mina, Celentano, Pino Danielle… Recitavam-se mutuamente as letras das músicas, as poesias, os trechos musicais e poéticos do teatro, dos filmes. Enquanto giravam, a cidade flutuava na neblina dos parques, dos monumentos. Pedreira, Leminski, Ópera de Arame e o guarda local espantado com os dois malucos saltando o alambrado às 2h da madrugada para colar o nariz no vidro e olhar a escuridão lá dentro. Quase morreram de susto. Personagens desconexos os três.
Ao som do Premiata Forneria Marconi, passearam nas alturas do Tanguá, olhando as águas insondáveis que subiam em névoa. Com a manhã se aproximando, caminharam ao redor de outro lago e, na ponte de madeira, ela cantou “Chega de saudade”.
O dia amanheceu azul e ela o levou para o hotel enquanto o CD repetia: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”. Ele conhecia a melodia e cantava num português macarrônico de vogais abertas e ausência de nasais…
Riram muito da sua desafinação musical, espantados e divertidos com a afinação mental que os entontecia levemente.
Passaram por um outdoor gigante sobre o dia dos namorados, que o estranhou. San Valentino a giugno? Pensa te!
Tomando café com a mãe um pouco depois, ela riu muito contando as peripécias da noite. O interfone tocou e o porteiro avisou a chegada de uma encomenda. Desceu para receber o enorme maço de rosas vermelhas com um poemeto italiano, numa letra ínfima quase ilegível. Lugar comum, nenhum lugar. Riu.
Ajeitou as flores que ficaram perfumando a mesa da sala vazia.
Saiu para o sol. Dia dos namorados, ópera antiga, bossa nova, teatro, poesia, a vida dançando colorida na canção popular. “Há dias que a gente se sente como quem partiu...”.

domingo, 22 de junho de 2008

Mais de mês sem nada postar.
A pergunta vem forte, quando os que me visitam me cobram.
Será que a vida exclui a arte?
Muita pretensão de minha parte.
Li uma vez, numa entrevista da maravilhosa Fanny Ardant, que precisa-se sofrer para escrever, mas não se pode escrever enquanto se sofre. Se a frase é realmente dela não sei.
Sei que quando estou muito agitada, com muitas coisas acontecendo, a maior parte do tempo na minha vida, não consigo muito sentar para escrever.
Escrevo milhares de páginas na minha cabeça, que esvaem-se com e como os sonhos.
Anseio pelo tempo de entrar em contato com a folha branca mas não consigo o momento de desfrutá-la.
Há períodos que leio, tudo e por tudo.
Sei que requer disciplina.
Mas as vezes me sinto demasiadamente cheia de vida, eletricidade. É-me totalmente difícil concatenar idéias em letras e palavras.
Algo urge em sair de outras formas.
O diálogo com a folha fica como que enterditado.
Seria esse o tal bloqueio do escritor???
Novamente a pretensão se apresenta.
Rilke dizia nas Cartas a um jovem poeta alguma coisa do tipo, só escreva se você realmente não conseguir se imaginar vivendo sem isso. Se isso for uma necessidade tão premente como a própria vida, ou maior que ela.
Isto deve querer dizer que não seria considerada uma escritora, e menos ainda, uma poeta, para Rilke.
Ou será que isso pode aparecer de maneira diferente para cada ser que abre mão desta forma de comunicação consigo mesmo????
Penso nos grandes que amo. Pessoa, Espanca, Drummond, Bandeira, Adélia... Todos tão diferentes. Mas com aquele enorme talento em comum.
Penso em Clarice, Guimarães, Machado.
Penso em Carpinejar, Martha Medeiros.
Penso em meus amigos: Juliana, Giuse, Alessandro e agora os novos conhecidos virtualmente.
É tanta coisa escrita, tão linda de se ler. Tão presentes que são nos momentos da vida em que mitigamos pequenas atenções, pequenos respiros, pequenos sopros em nossas almas fatigadas.
Há dias em que a gente se sente como quem não chegou ainda nem aonde.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Poetisando

Há dias que assim, me sinto
Leminski
concisa, distraída, irreverente.
Noutros, de chuva, recolhimento,
Sou Florbela, Espanca meu tormento,
trágica, insatisfeita, soneto!
Pessoa, múltipla, indecisa,
vagueio a charneca dos meus Eus.
Não sinto. Penso meu sentir,
ressentindo a falta do viver.

A vida dura uma saudade.
A lembrança de esquecer
antes o que não era vida.
Apenas a dor da partida,
o berro da chegada,
a lágrima do Alvorecer!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Reunião

Ela acabou de falar e olhou ao redor para saborear o efeito que suas idéias produziram.
Levantou seus grandes olhos morenos, as grossas sobrancelhas ainda tensas do esforço de manter o foco só no que estava falando.
Finalmente rendeu-se e procurou o olhar dele.
Como esperava, encontrou: aprovação, um traço de diversão, e aquela admiração que lhe proporcionava um gozo íntimo e particular indizível.

Sorriu.

Arrependeu-se naquele momento de ter arrumado os longos cabelos negros em um coque no alto, o que lhe dava um ar mais adulto, mas que agora a impedia de jogá-los para trás causando aquele certo impacto sensual feminino (quantas manhas e artimanhas contam as mulheres??) Teve que se contentar em enrolar os raros fios que deixara pendentes nas têmporas.

Cruzou os braços e ateve sua atenção ao assunto discutido, agora por outro colega.

Vã tentativa.

Adivinhou o olhar dele procurando o dela.

Para ambos a reunião havia acabado. Ela já dissera tudo que nescessitava ser dito.
O colega delongava-se em redundâncias do já ouvido.
Não, não iriam comprar a nova sede para a associação, iriam reformar, ou antes, restaurar a antiga. O casarão velho e charmoso do final do século, que sabia tantos momentos seus.

Manteve o olhar nas anotações rabiscadas em sua agenda. Mas sabia o dele a perscrutá-la.
Agora ele daria um suspiro calmo e adequadamente encerraria a reunião que finalizara da exata maneira que ele predissera, até porque era a forma mais coerente.
E era sempre assim.

O que sucederia então???
Aquele nervoso momento inevitavelmente se apresentava.
Nunca sabia se levantava e saía ou esperava.
Não conseguia pensar, decidir.
Às vezes acabava por tomar a atitude errada.
Na dúvida, aguardou. A respiração quase suspensa...
Os outros já iam saindo. Onde estava ele???

Viu-o descendo as escadas conversando com uma das moças.
Só restara ela ali.
Resistiu um pouco à maldita ansiedade e foi descendo os degraus até a ante-sala.
Apagou a luz do hall e estava fechando a porta quando ele apareceu novamente e disse-lhe que esperasse um pouco.
Estava por trás dela com o braço por sobre seu ombro empurrando gentilmente a porta, de forma que seu cheiro a invadiu de imediato a acendendo.
Céus!! Aquele homem a desconcertava sempre.

_ Vamos conversar. _ ele pediu.
Olhou-o. Olharam-se.
Um homem. Senso latu e estricto.
Experiência, charme, poder, inteligência sedução. Um ar propositadamente casual, cabelos longos com fundas entradas na testa, dando-lhe uma certa sobriedade. Toda uma vida anterior a ela, compromissos, posição, propriedade.
Ali: Um homem.
Ela quase uma menina, o que o seduzia.
Sem dúvida uma mulher, o que o intrigava e enlouquecia.
Juntos, mergulhando em olhares, um e outro tinham a idade do tempo.
Naquele instante, o tempo inexistia.

Abraçou-a de modo terno e então começou a beijá-la intensa e apaixonadamente.
Rápido foi lhe tirando a roupa e quando deu por si estava em cima da mesa recebendo-o inteira num frenesi delicioso. Ela perdia-se nele. Encontrava-se e tornava a perder-se. Submergia em seus afagos, estremecia em sua língua, que explorava pontos infinitos de sua feminilidade. Enredava-se em seus cabelos e aspirava o sensual perfume que produziam na alquimia de seus corpos em êxtase.
Embalava-se na sensação de tê-lo em seu âmago e perdê-lo entre os dedos e lábios, escorregando no gozo.
A pequena mesa gemia suas carícias. A luz da rua despejava em tudo uma atmosfera de fatalidade.
A mesa não resistiria mais.

Em sua cabeça ecoava um velho poema...
Rêves du matin,
que un jour a cette plage
le soleil nous reveille
y avec son rayon
touche les nuages
y nous invite
de promêner loin
tout seul
main dans la main
ce chemin infinit,
sur les sables rouges et gris.
Não lembrava o autor, mas exibiu-se recitando para ele que sorriu doce e elogiou seu francês.

Ela era feliz.
Morreria depois, inúmeras vezes.
A cada reunião, a cada encontro, a cada final de semana sabendo-o eu sua vida, que não era a dela.
Agora era completa. Era mulher.
Amante! Amada! Deliciada!

Foi juntando suas peças e ventindo-se sob o olhar acariciante dele.
Disfarçava a angústia da despedida próxima, fazendo comentários cáusticos sobre as desigualdades entre homem e mulher.
Ele ria.
Beijou-a novamente e saíram juntos para a neblina.
Seguiam caminhos diversos, vidas próprias.
Até o próximo momento de paixão.


Algum lugar entre 1993/1995.
Poema: Numa aquarela da praia do Frances em Maceió, as palavras de um alemão embevecido com as praias e as meninas brasileiras. Jan/1982.

terça-feira, 8 de abril de 2008

A Festa

A vida passa.
A gente passa, amarrotando a vida para passá-la.
Passa menina.
A roupa nova, a roupa suja.
Passam horas, minutos,
as vezes segundos contados
passando arrastados.
Passa o nó na garganta
Passa a gravata sem nó, para a festa do aniversário que passa.
Que passem coloridos
As dores, os amores
As luzes
Mas não passe o brilho todo teu.

Noite de São João

Um beijo
longo, molhado, doce
quente, lambido, estalado
Um beijo demorado,
irriquieto, exigente
Um beijo ardente, profundo!

Um beijo só!
Um beijo agora!
Um beijo cheio de amor!
Cheio de lábios,
cheio de dentes e línguas.
Que dê um frio na garganta,
Um quente na barriga,
Que dispare o coração
E molhe toda a calcinha!!!

domingo, 30 de março de 2008

Inverno pausa

Na beira da calçada
Na alameda
Entre todas as sêcas, de surpresa
Uma árvore rosa, toda florida.

De repente, sem mais nem aquela!

A vida é assim.
Sem hora nem tempo.
Vira primavera a qualquer momento.
Mesmo no meio do inverno.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Concha

De algum lugar saía aquela mão que puxando seu braço e brotando dele próprio, o levava mais e mais ao fundo.
Fundo do quê? - era a pergunta.
Permanecia sem resposta.
A letargia consumindo, ou melhor, apossando cada fibra muscular.
Os pensamentos, mais e mais devagar,
Vagando silenciosamente no negro estar.
Distantes mais e mais...
Sepulcro. Sepulcral.
A cada gota de sangue passando lentamente a crossa da aorta,
pingando infindavelmente,
mantendo a miserável vida.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Querer verbo intransigente

Em minhas entranhas, quero você dentro de mim. Teso!
Em minha cabeça, quero você perto de mim. Lúcido.
Em meu coração quero você leve, livre, solto, teu, tesão...
Teu tesão, independente da minha paixão
Acende um fogo e queima minha paz.
Arde em labaredas sinuosas
Insinuando-se em minhas artérias pudendas que
Sem pudor algum, pulsam teu nome e escorrem minha seiva de encontro ao teu Amor!
Teu cheiro me invade sempre depois.

Dentro do Grande Sertão - Verêdas

Um triste...
Um triste tão triste dentro de mim.
Lendo assim a tristeza da saga alheia
Lembro a minha tristeza
Minhas faltas,
Minha certeza:
- Crescer é ser sozinho
Sem só ser! -
Há que aprender... e muito!
Viver só dentro do mundo.
Viver só dentro de mim.
A mim achar e a minha companhia ter!


1993

Puno

Sê mulher!
Inteira!
Do direito,
Do avesso.
Virando mesmo
o mundo de cabeça para baixo.
Se cair,
olha dentro do sonho não dormido
que ensinou o caminho
da cidade perdida,
na cordilheira dentro de ti mesma.
Sempre!
Respira fundo e voa sem mêdo
nunca,
de ser, que se é, Feliz!

1994.

Condição mulher

As mulheres são engraçadas.
Pelo menos algumas, como eu mesma.
Tudo o que queremos é uma vida de romance e poesia.
Com flores nas datas e fora delas.
Com bombons bonitos e, se possível, uma jóia de vez em quando.
Claro, sem esquecer nosso reconhecimento e realização profissionais.
Então vemos loucos filmes de amor, paixão e sofrimento, e queremos imitá-los em nossas boas vidinhas.
E sofremos, sofremos, sofremos.
Eis a nossa escolha. Loucas que somos. Trágicas e dramáticas.
Como madames Bovary. Histéricas e insatisfeitas com tudo que não seja a pungência do anseio de ter sempre só o que não temos.