sexta-feira, 11 de julho de 2008

Convite



Começou ano passado, quando conheci Juliana,
Me contou que escrevia, bordava e cozinhava
E que tinha um Blog.
Visitei e gostei. Lembrei do que há muito começava
Sem coragem de andar.
Resolvi experimentar.
Comecei aqui a postar, coisas que gostava.
Comecei a contar às pessoas, que acretidava,
pudessem também gostar.
Uma amiga animada, paciente, dedicada,
me mandou um endereço.
Arrisquei, ousei e me mostrei.
O primeiro resultado, em papel impresso, registrado
Na forma mais querida e almejada.
Um livro. Com meu nome nele inscrito e um pouco da minha alma gavinha
Compartilhada.
Feliz no conjunto. Muito bem acompanhada.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Conto do Negócio

Tudo dera absolutamente certo. Sua vida começara da maneira certa e tudo fora caminhando como esperado.
Não nascera em berço de ouro, nada disso, mas no lugar certo, na família certa, na hora certa.
Seus pais eram os que tinham dado mais certo nas suas respectivas famílias. Ambos vindos daquelas típicas famílias de classe média, com 2 irmãos mais novos. Tinham escolhido a medicina e eram felizes no que faziam. Só um erro. Não tinham conseguido se acertar juntos. Talvez por serem, cada um à sua maneira, inteligentes e voluntariosos demais. Haviam mergulhado separadamente em seus trabalhos, suas conquistas. Competiam. Não conviviam.
Até isso, de certa forma, tinha sido bom para ele. Competiam em tudo. Em lhe dar os melhores presentes, a melhor educação, o melhor incentivo, o melhor conselho…
Ele fora aproveitando o melhor de cada lado. Vendo os dois submergirem em seus trabalhos, decidiu que a medicina não lhe servia. Ele queria ter uma família que se reunisse às refeições em volta da mesa, conversando animada e degustando a vida.
A mãe cozinhava bem. Tradição de família. As avós faziam delícias dignas dos melhores restaurantes. Ele adorava sapear pela cozinha, sentindo os aromas, adivinhando os sabores, provando o paladar.
A mãe lhe dizia: escolha uma coisa que gostes de fazer. Trabalhe no que gosta e nunca vais trabalhar na vida.
Sua mente ágil não teve problemas em organizar tudo. Divertia-se tanto nos cursos de culinária como na faculdade de administração, onde a mágica dos números o encantava e tudo encaixava certinho.
Aos 21, com o diploma debaixo do braço, facilidade para as línguas e uma vontade de ganhar o mundo maior que o próprio, embarcou para a Europa. A Itália era a mãe de seus sabores, a França a sua roupagem, os países nórdicos sua resistência, os orientais sua extravagância, a África sua doçura e exotismo. As comidas, os costumes, os perfumes, as pessoas, tudo o fascinava e criava em seu espírito inspirações de sabores e combinações inusitadas. Pratos diferentes se materializavam em suas mãos e deliciavam quem os provava. Foi premiado pelo mundo todo.
Voltou e abriu seu pequeno restaurante. Ali, seus amigos, família, ilustres desconhecidos se reuniam sempre às refeições e conversavam, riam, bebiam e comiam.
O lugar estava sempre cheio, sua forma animada de atender, cozinhar e servir atraía cada vez mais clientes, que sempre saíam satisfeitos e voltavam.
Ela apareceu como representante de vinhos. Tornou-se freguesa. Almoçava todos os dias, jantava quase sempre. Conversava e contava estórias deliciosas.
Começou a fazer a diferença, já não era mais capaz de ficar com a sua ausência.
Um dia, após um jantar em que ela parecia, mais que nunca, não ter nenhuma pressa em tomar seu caminho, ele abriu um vinho, fechou as portas, apagou as luzes deixando somente as velas, sentou-se à sua frente, e num sorriso lhe disse, sincronizando com a música:
_ Não quero mais esse negócio de você longe de mim.
E certamente, a estória continuou…

San Valentino

Eram umas 7 da noite do dia 11 de junho. Véspera do dia dos namorados, antevéspera do seu aniversário, saía para levar a mãe na casa da tia e o telefone tocou: – Oi, minha amiga!!?!?? Preciso de um favor seu!?!?!?!
Precisava que fosse intérprete para um diretor italiano que, estava na cidade para dirigir uma ópera, e o levasse assistir a um coro de crianças que faria parte do espetáculo
Ela foi. Era sábado e, fora ficar com a mãe e a tia, duas velhinhas simpáticas e faladeiras, não tinha nenhum outro programa. A amiga dissera tratar-se de um homem muito charmoso. Ele era alto, aparentava uns 50 anos ou mais, cabelo grisalho meio comprido, com profundas entradas e uma espécie de franjinha, olhar um pouco cansado, mas curioso.
Sorriu simpático e parecia divertido com a experiência. Assistiu estoicamente toda a apresentação dos inúmeros corais e pretensos artistas infantis. Saiu ao final para fumar.
Começaram a conversar na rua, em frente ao teatro, e o assunto varou a noite. Música popular brasileira, italiana, poesia, teatro, rock progressivo italiano, Vinicius, Tom, Caetano, Mina, Celentano, Pino Danielle… Recitavam-se mutuamente as letras das músicas, as poesias, os trechos musicais e poéticos do teatro, dos filmes. Enquanto giravam, a cidade flutuava na neblina dos parques, dos monumentos. Pedreira, Leminski, Ópera de Arame e o guarda local espantado com os dois malucos saltando o alambrado às 2h da madrugada para colar o nariz no vidro e olhar a escuridão lá dentro. Quase morreram de susto. Personagens desconexos os três.
Ao som do Premiata Forneria Marconi, passearam nas alturas do Tanguá, olhando as águas insondáveis que subiam em névoa. Com a manhã se aproximando, caminharam ao redor de outro lago e, na ponte de madeira, ela cantou “Chega de saudade”.
O dia amanheceu azul e ela o levou para o hotel enquanto o CD repetia: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”. Ele conhecia a melodia e cantava num português macarrônico de vogais abertas e ausência de nasais…
Riram muito da sua desafinação musical, espantados e divertidos com a afinação mental que os entontecia levemente.
Passaram por um outdoor gigante sobre o dia dos namorados, que o estranhou. San Valentino a giugno? Pensa te!
Tomando café com a mãe um pouco depois, ela riu muito contando as peripécias da noite. O interfone tocou e o porteiro avisou a chegada de uma encomenda. Desceu para receber o enorme maço de rosas vermelhas com um poemeto italiano, numa letra ínfima quase ilegível. Lugar comum, nenhum lugar. Riu.
Ajeitou as flores que ficaram perfumando a mesa da sala vazia.
Saiu para o sol. Dia dos namorados, ópera antiga, bossa nova, teatro, poesia, a vida dançando colorida na canção popular. “Há dias que a gente se sente como quem partiu...”.

domingo, 22 de junho de 2008

Mais de mês sem nada postar.
A pergunta vem forte, quando os que me visitam me cobram.
Será que a vida exclui a arte?
Muita pretensão de minha parte.
Li uma vez, numa entrevista da maravilhosa Fanny Ardant, que precisa-se sofrer para escrever, mas não se pode escrever enquanto se sofre. Se a frase é realmente dela não sei.
Sei que quando estou muito agitada, com muitas coisas acontecendo, a maior parte do tempo na minha vida, não consigo muito sentar para escrever.
Escrevo milhares de páginas na minha cabeça, que esvaem-se com e como os sonhos.
Anseio pelo tempo de entrar em contato com a folha branca mas não consigo o momento de desfrutá-la.
Há períodos que leio, tudo e por tudo.
Sei que requer disciplina.
Mas as vezes me sinto demasiadamente cheia de vida, eletricidade. É-me totalmente difícil concatenar idéias em letras e palavras.
Algo urge em sair de outras formas.
O diálogo com a folha fica como que enterditado.
Seria esse o tal bloqueio do escritor???
Novamente a pretensão se apresenta.
Rilke dizia nas Cartas a um jovem poeta alguma coisa do tipo, só escreva se você realmente não conseguir se imaginar vivendo sem isso. Se isso for uma necessidade tão premente como a própria vida, ou maior que ela.
Isto deve querer dizer que não seria considerada uma escritora, e menos ainda, uma poeta, para Rilke.
Ou será que isso pode aparecer de maneira diferente para cada ser que abre mão desta forma de comunicação consigo mesmo????
Penso nos grandes que amo. Pessoa, Espanca, Drummond, Bandeira, Adélia... Todos tão diferentes. Mas com aquele enorme talento em comum.
Penso em Clarice, Guimarães, Machado.
Penso em Carpinejar, Martha Medeiros.
Penso em meus amigos: Juliana, Giuse, Alessandro e agora os novos conhecidos virtualmente.
É tanta coisa escrita, tão linda de se ler. Tão presentes que são nos momentos da vida em que mitigamos pequenas atenções, pequenos respiros, pequenos sopros em nossas almas fatigadas.
Há dias em que a gente se sente como quem não chegou ainda nem aonde.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Poetisando

Há dias que assim, me sinto
Leminski
concisa, distraída, irreverente.
Noutros, de chuva, recolhimento,
Sou Florbela, Espanca meu tormento,
trágica, insatisfeita, soneto!
Pessoa, múltipla, indecisa,
vagueio a charneca dos meus Eus.
Não sinto. Penso meu sentir,
ressentindo a falta do viver.

A vida dura uma saudade.
A lembrança de esquecer
antes o que não era vida.
Apenas a dor da partida,
o berro da chegada,
a lágrima do Alvorecer!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Reunião

Ela acabou de falar e olhou ao redor para saborear o efeito que suas idéias produziram.
Levantou seus grandes olhos morenos, as grossas sobrancelhas ainda tensas do esforço de manter o foco só no que estava falando.
Finalmente rendeu-se e procurou o olhar dele.
Como esperava, encontrou: aprovação, um traço de diversão, e aquela admiração que lhe proporcionava um gozo íntimo e particular indizível.

Sorriu.

Arrependeu-se naquele momento de ter arrumado os longos cabelos negros em um coque no alto, o que lhe dava um ar mais adulto, mas que agora a impedia de jogá-los para trás causando aquele certo impacto sensual feminino (quantas manhas e artimanhas contam as mulheres??) Teve que se contentar em enrolar os raros fios que deixara pendentes nas têmporas.

Cruzou os braços e ateve sua atenção ao assunto discutido, agora por outro colega.

Vã tentativa.

Adivinhou o olhar dele procurando o dela.

Para ambos a reunião havia acabado. Ela já dissera tudo que nescessitava ser dito.
O colega delongava-se em redundâncias do já ouvido.
Não, não iriam comprar a nova sede para a associação, iriam reformar, ou antes, restaurar a antiga. O casarão velho e charmoso do final do século, que sabia tantos momentos seus.

Manteve o olhar nas anotações rabiscadas em sua agenda. Mas sabia o dele a perscrutá-la.
Agora ele daria um suspiro calmo e adequadamente encerraria a reunião que finalizara da exata maneira que ele predissera, até porque era a forma mais coerente.
E era sempre assim.

O que sucederia então???
Aquele nervoso momento inevitavelmente se apresentava.
Nunca sabia se levantava e saía ou esperava.
Não conseguia pensar, decidir.
Às vezes acabava por tomar a atitude errada.
Na dúvida, aguardou. A respiração quase suspensa...
Os outros já iam saindo. Onde estava ele???

Viu-o descendo as escadas conversando com uma das moças.
Só restara ela ali.
Resistiu um pouco à maldita ansiedade e foi descendo os degraus até a ante-sala.
Apagou a luz do hall e estava fechando a porta quando ele apareceu novamente e disse-lhe que esperasse um pouco.
Estava por trás dela com o braço por sobre seu ombro empurrando gentilmente a porta, de forma que seu cheiro a invadiu de imediato a acendendo.
Céus!! Aquele homem a desconcertava sempre.

_ Vamos conversar. _ ele pediu.
Olhou-o. Olharam-se.
Um homem. Senso latu e estricto.
Experiência, charme, poder, inteligência sedução. Um ar propositadamente casual, cabelos longos com fundas entradas na testa, dando-lhe uma certa sobriedade. Toda uma vida anterior a ela, compromissos, posição, propriedade.
Ali: Um homem.
Ela quase uma menina, o que o seduzia.
Sem dúvida uma mulher, o que o intrigava e enlouquecia.
Juntos, mergulhando em olhares, um e outro tinham a idade do tempo.
Naquele instante, o tempo inexistia.

Abraçou-a de modo terno e então começou a beijá-la intensa e apaixonadamente.
Rápido foi lhe tirando a roupa e quando deu por si estava em cima da mesa recebendo-o inteira num frenesi delicioso. Ela perdia-se nele. Encontrava-se e tornava a perder-se. Submergia em seus afagos, estremecia em sua língua, que explorava pontos infinitos de sua feminilidade. Enredava-se em seus cabelos e aspirava o sensual perfume que produziam na alquimia de seus corpos em êxtase.
Embalava-se na sensação de tê-lo em seu âmago e perdê-lo entre os dedos e lábios, escorregando no gozo.
A pequena mesa gemia suas carícias. A luz da rua despejava em tudo uma atmosfera de fatalidade.
A mesa não resistiria mais.

Em sua cabeça ecoava um velho poema...
Rêves du matin,
que un jour a cette plage
le soleil nous reveille
y avec son rayon
touche les nuages
y nous invite
de promêner loin
tout seul
main dans la main
ce chemin infinit,
sur les sables rouges et gris.
Não lembrava o autor, mas exibiu-se recitando para ele que sorriu doce e elogiou seu francês.

Ela era feliz.
Morreria depois, inúmeras vezes.
A cada reunião, a cada encontro, a cada final de semana sabendo-o eu sua vida, que não era a dela.
Agora era completa. Era mulher.
Amante! Amada! Deliciada!

Foi juntando suas peças e ventindo-se sob o olhar acariciante dele.
Disfarçava a angústia da despedida próxima, fazendo comentários cáusticos sobre as desigualdades entre homem e mulher.
Ele ria.
Beijou-a novamente e saíram juntos para a neblina.
Seguiam caminhos diversos, vidas próprias.
Até o próximo momento de paixão.


Algum lugar entre 1993/1995.
Poema: Numa aquarela da praia do Frances em Maceió, as palavras de um alemão embevecido com as praias e as meninas brasileiras. Jan/1982.

terça-feira, 8 de abril de 2008

A Festa

A vida passa.
A gente passa, amarrotando a vida para passá-la.
Passa menina.
A roupa nova, a roupa suja.
Passam horas, minutos,
as vezes segundos contados
passando arrastados.
Passa o nó na garganta
Passa a gravata sem nó, para a festa do aniversário que passa.
Que passem coloridos
As dores, os amores
As luzes
Mas não passe o brilho todo teu.

Noite de São João

Um beijo
longo, molhado, doce
quente, lambido, estalado
Um beijo demorado,
irriquieto, exigente
Um beijo ardente, profundo!

Um beijo só!
Um beijo agora!
Um beijo cheio de amor!
Cheio de lábios,
cheio de dentes e línguas.
Que dê um frio na garganta,
Um quente na barriga,
Que dispare o coração
E molhe toda a calcinha!!!

domingo, 30 de março de 2008

Inverno pausa

Na beira da calçada
Na alameda
Entre todas as sêcas, de surpresa
Uma árvore rosa, toda florida.

De repente, sem mais nem aquela!

A vida é assim.
Sem hora nem tempo.
Vira primavera a qualquer momento.
Mesmo no meio do inverno.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Concha

De algum lugar saía aquela mão que puxando seu braço e brotando dele próprio, o levava mais e mais ao fundo.
Fundo do quê? - era a pergunta.
Permanecia sem resposta.
A letargia consumindo, ou melhor, apossando cada fibra muscular.
Os pensamentos, mais e mais devagar,
Vagando silenciosamente no negro estar.
Distantes mais e mais...
Sepulcro. Sepulcral.
A cada gota de sangue passando lentamente a crossa da aorta,
pingando infindavelmente,
mantendo a miserável vida.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Querer verbo intransigente

Em minhas entranhas, quero você dentro de mim. Teso!
Em minha cabeça, quero você perto de mim. Lúcido.
Em meu coração quero você leve, livre, solto, teu, tesão...
Teu tesão, independente da minha paixão
Acende um fogo e queima minha paz.
Arde em labaredas sinuosas
Insinuando-se em minhas artérias pudendas que
Sem pudor algum, pulsam teu nome e escorrem minha seiva de encontro ao teu Amor!
Teu cheiro me invade sempre depois.

Dentro do Grande Sertão - Verêdas

Um triste...
Um triste tão triste dentro de mim.
Lendo assim a tristeza da saga alheia
Lembro a minha tristeza
Minhas faltas,
Minha certeza:
- Crescer é ser sozinho
Sem só ser! -
Há que aprender... e muito!
Viver só dentro do mundo.
Viver só dentro de mim.
A mim achar e a minha companhia ter!


1993

Puno

Sê mulher!
Inteira!
Do direito,
Do avesso.
Virando mesmo
o mundo de cabeça para baixo.
Se cair,
olha dentro do sonho não dormido
que ensinou o caminho
da cidade perdida,
na cordilheira dentro de ti mesma.
Sempre!
Respira fundo e voa sem mêdo
nunca,
de ser, que se é, Feliz!

1994.

Condição mulher

As mulheres são engraçadas.
Pelo menos algumas, como eu mesma.
Tudo o que queremos é uma vida de romance e poesia.
Com flores nas datas e fora delas.
Com bombons bonitos e, se possível, uma jóia de vez em quando.
Claro, sem esquecer nosso reconhecimento e realização profissionais.
Então vemos loucos filmes de amor, paixão e sofrimento, e queremos imitá-los em nossas boas vidinhas.
E sofremos, sofremos, sofremos.
Eis a nossa escolha. Loucas que somos. Trágicas e dramáticas.
Como madames Bovary. Histéricas e insatisfeitas com tudo que não seja a pungência do anseio de ter sempre só o que não temos.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Manhã

Andando pelo parque ela observava ao redor e pensava em sua vida.
A temperatura estava amena, um daqueles dias de inverno em que a primavera parece querer se fazer lembrar.
O ar tinha o perfume suave da vida que se anima com o calor inesperado e ameça brotar cheia de alegria.
O céu tingia-se de sobre-tons de rosa ao dourado, que iam se desvanecendo até chegar ao azul infinito no alto da abóboda, onde as nuvens não alcançavam.
O sol se esparramava por detrás da encosta verde, acariciando as árvores e indo mergulhar nas águas do lago, naquele dia plácidas como um espelho a espera de Narciso.
Como era belo aquele lugar, ela pensou. Como amava tudo aquilo!
Era o momento mais suave do seu dia.
Nunca abria mão de sua caminhada diária e do que ela representava - momentos únicos de encontro consigo mesma.

Diagnose

O sangue que corre em minhas veias ferve minhas entranhas.
Uma inquietação primária sacode minhas artérias e reboliça meu coração.
Procuro em não sei quês, a causa de meus nervos.
Disfarço e dissimulo a falta que bem sei.
Engano-me propositadamente e chamo nomes errados.
Não há rostos, nem corpos... a ausência é minha.
O desconforto é interno.
Fico com ele, diluo-me em minha própria dor sem chaga.
E sigo comigo.
Ansiando

1995

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A mensagem

Estava sonhando não lembro já o quê. Era um sono agitado, atrapalhado por um estômago cheio. No meio daquela confusão - semi desperta ou adormecida - um terceiro BIP do celular, finalmente me trouxe à superfície do mar agitado em que me debatia.

Depois de alguns segundos necessários para me localizar, dentro de mim ao menos, peguei meus óculos e o celular para receber a mensagem que ele anunciava. Nessa emersão tive tempo de pensar que: era o terceiro BIP; que minha bexiga estava cheia mas não seria atendida; que seria possível que o celular tivesse tocado e eu não tivesse ouvido? Que era uma mensagem e que podia ser da Vivi, minha amiga que estava com o amigo no hospital e com quem eu não tinha falado o dia anterior todo embora tivesse pensado nisso várias vezes; que eu já tinha me esquecido do que estava sonhando...

Abri o celular, teclei o comando de ver a mensagem, esperei o foco se ajustar e li:
"Terminei minha farsa!namoro d
mentira!desculpa por ter
te mentido!cai no conto
da fantasia!preciso d
ajuda p esquece-lo,ele é
perigoso vestido
branco!bj
De:04199888666"

Li até aí e tudo de novo. A. tinha se levantado e ido ao banheiro. Voltou e perguntei as horas. Deve ser lá pelas quatro. Foi o hospital? É paciente? Não sei. Virei pro lado e fui mergulhando no sono de bexiga cheia novamente... eu conhecia aquele número?? Alguma paciente tinha me falado aquelas palavras: namoro de mentira?

No novo sonho - ou era o mesmo? eu estava com amigos e primos em uma espécie de festa numas ruínas, e com minha amiga Lena, pulava uma corda invisível contando de 10 em 10 até cem, sem cair ou errar, não importando como ela balançasse a corda nem que a mesma fosse invisível.

O despertador tocou às 6:30 para ser desligado várias vezes até tocar novamente às 7:30 e me fazer levantar.
De baixo do chuveiro com água e shampoo a me escorrerem pelas ventas, fui esquecendo o sonho, sem sentido, e lembrando a mensagem mais ainda incoerente, anacrônica, inoportuna. Curiosa, fui relê-la. Não tinha assinatura. Foi enviada, ou recebida no meu aparelho às 2:42h. Fiquei tentada a ligar para o número que a tinha enviado.
Obviamente, não era eu a real destinatária. Tentei buscar na minha memória, dentro dos dramas e estórias que escuto no dia-a-dia de meu consultório de ginecologia/obstetrícia/adolescência/psicologia?, alguma que se encaixasse. Alguém que, me pareceu, me tivesse dito em algum momento, aquela pequena cadeia de palavras: "namoro de mentira". Parecia me lembrar. Não consegui encaixar com nenhuma face, nenhuma pessoa. Aquela que me ligou com teste de gravidez positivo, que tem namorado e amante? Aquela mais velha, casada e descontente que arranjou um namorado mais novo e estava até mais feliz?? Mas por que diabos pediria desculpas por ter me mentido? E por quê me mentiria? Eu, meio confessionário, meio ginecologista?? Teria a pessoa, da mensagem, se envolvido com algum médico que eu conhecia, e me pedia ajuda para esquecer o "perigoso vestido branco"?? Sim, pois assim estava escrito: "ele é perigoso vestido branco" embora eu tivesse lido: "perigoso vestido de branco". Não, não fazia sentido!

O número me parecia conhecido. Procurei na lista de chamadas anteriores. Não estava lá. Mas provavelmente é mesmo conhecido. A pessoa, essa mulher, deve ter o meu número em seu elenco de registros e ao tentar enviar a mensagem para a pessoa correta, algum M ou D de seu elenco, sem querer, mandou para mim. Ou teria sido um acaso ainda maior?? Foi digitanto os números, na urgência de sua ansiedade e uma combinação errada, ou uma tecla trocada fez a mensagem se dirigir à mim?

Segurei a vontade de ligar para o número ou responder a mensagem. Fui dando asas a imaginação, deixando os pensamentos seguirem. O primeiro foi: isso dá um conto! Claro, pode dar uma aventura. Paul Auster tem no mínimo um conto em que tudo começa com um telefonema enganado que o herói recebe na madrugada. Me refiro ao primeiro conto da Trilogia de Nova York. Com ele a coisa se repete, havia mais que uma troca de números. Todo um jogo com nomes de autor, narrador e personagem. Uma de suas obra-primas do realismo fantástico. Lembrei ainda de Griffin e Sabine, toda uma estória de amor e suspense em 3 deliciosos volumes, cheios de lindas ilustrações e envelopes com cartas e cartões, num jogo divertido com o leitor, que se não me falha a memória começa com uma correspondência meio estranha e mal explicada.

Fiquei imaginando qual seria a estória desta moça. Teria um namorado não aceito pela família, quem sabe casado, ou pobre, ou rico demais?? e começou o namoro com outro que a cortejava, para agradar os pais. Um moço aceitável, médico de profissão, com quem iniciou o que chama de farsa... Não, não gostei desse enredo. Não faz muito sentido com as frases que ela escreve.
Por quê seria uma farsa?? Por quê teria ela caído no conto da fantasia? A fantasia seria de médico? Médicos já nem sempre vestem branco. Muito mais os dentistas, fisioterapeutas, esteticistas... Por quê precisaria de ajuda para esquecê-lo? Por quê era perigoso vestido branco? Ou o vestido branco seria a fantasia, o conto no qual tinha caído?? Esperava casar-se?? E por quê teria mentido para a suposta pessoa em meu lugar? Seria ela (a pessoa) seu namorado? Seu amante? Ou sua namorada?? Por isso o outro namoro teria sido de mentira. Tinha tentado um relacionamento hetero para ser aceita pela família, mas apaixonou-se pelo médico/fisioterapeuta/esteticista que tinha mãos delicadas, fazia deliciosas massagens e um amor suave, muito mais de preliminares que de consumação. Depois, em algum momento, ela descobriu que ele também era ambivalente em sua sexualidade e buscava o mesmo que ela, a aprovação social num casamento de mentira. O perigoso vestido branco seria usado por ele... Ela confundiu-se, perdeu-se, sentiu-se traída. Voltava então para sua companheira a quem tinha mentido, pedindo desculpas e ajuda para esquecê-lo. Esquecer o engano em que se havia metido. Tão enganada estava, que trocou o número na hora de enviar a mensagem... que veio parar comigo.

Nestas suposições e outras, passei ontem o dia inteiro. Ainda me segurando para não discar o número ou responder a mensagem. Envolvendo-me de corpo, mas não de alma, com minhas tarefas diárias, minhas outras pacientes, meu horário na fisioterapeuta/acupunturista - ô palavra terrível!

Fui dormir tarde, depois de sair com uns amigos que falavam e falavam, de outras coisas, que não conseguiam afastar minha mente da inquisição do mistério.
Outra noite de sonhos agitados e não lembrados. Minha mente continuava cativa da mensagem...

Desta vez escutei chegar. Estava como que antecipando. Ainda assim, não emergi no mesmo instante. Fiquei semi-vigilante até o primeiro BIP. Coloquei então os óculos e lá estava:
Obrigada pelas oraÇoes
e o insentivo hj nasceu
uma luz q jamais se
apagara!quase surtei,+
venci.d coraÇao
obrigada!te devo
essa!beijos meus queridos
e ate
De:04199888666
4:38 20/02/08

Tive que levantar, ir ao banheiro, tomar um pouco de água. Tudo estava grafado exatamente assim e fazia menos sentido ainda. Então, de alguma forma a mensagem tinha chegado a algum destinatário correto. O pedido de ajuda foi atendido com orações. Ela teve um quase surto rápido e por milagre e obra da caridade divina acionada pelas preces dos amigos, viu nascer uma luz que jamais se apagará. Foi salva!

Agora eu é que estou presa. Refem total da curiosidade, que me faz pensar várias vezes ao dia em tentar estabelecer um contato mais imediato, para dar alguma concretude a esta quimera que me assombra a madrugada. E ao mesmo tempo, presa de uma outra sensação que é aquela de ficar aguardando, na espera do próximo acontecimento. Viciada no gostinho do mistério absurdo. Não do que vai acontecer com ela, agora iluminada, mas com nosso contato fortuito.

Meu lado persecutório ainda fica buscando algum indício de que sou eu a destinatária justa. Só não lembro quando e não sei porque.
Quem, entre tantos meus conhecidos, poderia estar apenas se divertindo comigo? Cheguei a desconfiar de minha amiga cronista, que nas madrugadas fica, sengundo ela própria, perigosamente diferente em sua inspiração e diz e escreve coisas que normalmente não faria.
Mas esse não é seu número. Nem de telefone, nem, até onde sei, de espetáculo. Ela faz fantasia da realidade. Ou melhor, ela conta a realidade tão bem contada, que a torna em sonho. Seus mistérios, são coloridas estória dela mesma e de seu dia-a-dia, ou pontos e pedacinhos de tecidos magicamente combinados. Acho... não, tenho certeza, que tem muito mais que escrever, que mensagens desconexas a enviar aleatoriamente e ver no que dá.

O louco, ou engraçado, é como uma coisa destas pode fazer a gente reagir de tantas formas diferentes.É incrível pensar todo o intrincado caminho que segue a comunicação humana. A diferença de sentido que há ou pode haver entre a mensagem enunciada e aquela recebida.


Isto tudo aconteceu nas madrugadas de segunda para terça-feira, e de terça para quarta. De quarta para quinta, nada aconteceu. Quinta à noite, eu ainda me debatia entre a vontade de ligar para o número, que me parecia sempre, intrigantemente conhecido, e a outra, de deixar o mistério no ar, viajando nas suposições e estórias criadas pela minha imaginação.

Acabei cedendo ao meu lado mais humano e feminino, ou simplesmente curioso, e ligando para a pessoa que tinha enviado as duas mensagens. Que passou a ter voz, nome, face e razões para ter feito aquilo.

Parte de minhas suposições estavam certas. O número era mesmo conhecido. A pessoa tinha mesmo meu número na sua lista e também era a mesma que tinha me falado no consultório, sobre o "namoro de mentira".

Sua história pessoal, não tem nenhuma proximidade com as suposições que levantei, mas nem por isso, seu porvir torna-se menos intrigante.
Agora tem mais cor, saber e dor.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Ensaio

Ó vida! Louca aventura teatral que não te ensaiei e nem um só lance d'olhos dei em teu script.
Ó dura indivisibilidade do homem a carregar uma alma tão múltipla!
Tantos personagens, uma só casca.
Ó louco coração a bater descompassado, qual dono não tivesse, a buscar agasalho em abrigo alheio.
Fora da lei. Fora da ordem. Fora da lógica do dia-a-dia.
Ó peça, que assustada esbocei sem chance de retoque!
E o que será desta obra afinal?
Amanhã, só amanhã saberei.

Sonho

Abriu os olhos de repente e tornou a fechá-los.
Não, não era dia de se acordar assim, de súbito.
Respirou devagar e profundamente e deixou o sonho dominar-lhe a mente e o corpo outra vez. Ainda podia sentir a vibração em cada músculo... Aos poucos foi deixando o despertar acontecer e a sensação afastar-se. Olhou através do voal do cortinado e da janela aberta. Era cedo ainda e a manhã já se fazia morna. A sombra da parede vizinha só disfarçava um pouco, dando uma ilusão de frescor no breve corredor. A terra exalava seu aroma doce e seco, próprio do verão ali.A janela da parede vizinha, a do sotão, permanecia fechada. Como alguém podia ficar lá com tudo fechado??? O calor aumentava dentro e fora do quarto, dentro e fora do corpo...
Deixou-se ficar um pouco mais, semi-enroscada nos lençóis úmidos. Que preguiça! E aquela vibração que teimava em prevalecer na cabeça, no coração, nas pernas, na cama, no quarto... e até na bruma do ar lá fora!!
Fora mesmo um sonho?
Levantando lentamente, tentou conectar as idéias, o sonho com a realidade. Lembrou o chopp gelado deliciando sua garganta e a impressão à entrada daquele homem, que cumprimentava a todos os seus grandes e velhos amigos ali presentes mas que ela nunca havia visto antes. Ele veio sentar-se a seu lado. Olhou-a demoradamente como se fosse uma predra exótica ou um animal raro, fazendo-a sentir-se...nua?
Logo conversavam animadamente. Todos queriam ouvir as estórias que ele tinha para contar. Ele falava de mil coisas, lugares, pessoas, fatos interessantes. Aquele homem era um poço! E ela bebia - daquela água encantada e do chopp. Olhavam-se muito, direta ou disfarçadamente. Os olhos dele eram de um marrom profundo e penetrante. Seu rosto coberto de barba e mistério. Dos cachos de seus cabelos emanava um perfume de países distantes. Era alegre. Seu riso contagiante. Bem falante, inebriava a todos.
Ela pegou um cigarro de alguém e tentou se esconder um pouco atrás da pequena cortina de fumaça não tragada. Inútil! O sorriso dele brilhava e seu olhar alcançava dentro dela. O chopp começou a acabar rápido demais e sua sede aumentava. O calor piorou. O ar do ambiente parecia não conter um mínimo aceitável de oxigênio.
Ele pegou em sua mão e convidou-a para andar na praia. A brisa do mar refrescou seu corpo e afagou seus cabelos. As mãos dele também. Ela sentia que o mundo poderia continuar girando indefinidamente.
Dançaram a canção das ondas e beijaram-se. a língua dele era quente,suas mãos ávidas e gentis, seu corpo ágil, perfumado. Ele era todo exigente. Seus corpos, juntos, seguiam a melodia da maré, vivenciavam a harmonia do cosmo. Entregavam-se um ao outro no esforço crescente da fusão total. E a dança se repetia. Novos passos, novos toques, novos universos. Que nada tivesse fim! Que tudo pudesse acabar naquele instante.
Como chegara em casa depois?
Ah! Ele a trouxera embalando pelas ruas. Vieram brincando com os cachorros, correndo com os gatos, pulando muros e cercas, cortando caminhos que ela conhecia desde criança.
Na porta da casa, depois do último dos beijos, ele disse um Tchau casual e riu da coincidência de serem vizinhos. Entrou na casa ao lado, debaixo de seu olhar pasmado, rindo sempre e dizendo: até amanhã!
Seu corpo ardia. Suor com areia, com sal, com desejo, com satisfação.
A água do chuveiro frio foi sua última carícia.
Molhada deitou-se para continuar a sonhar.

1996

Paraval

E tudo lembra Santa Catarina e Paraná
E tudo lembra viagem
E tudo cabe na paisagem
Se se permite a bobagem de viajar.
De avião, de trem, de ônibus, de navio
Ou mesmo só com o pé no frio
e a cabeça no ar!
Ou até virando Cristiane F e voando na maioneze.
Somos um grupo ou não somos????

1996